por Sónia Brandão

Ela
Durante anos, a venda que lhe cobria os olhos impediu-a de ver a vida que estava a viver.
Durante anos, os seus olhos recusaram-se a mostrar aquilo que estava à sua frente.
Durante anos, o filtro preto e branco, que coloria o seu mundo, impedira-a de ver, de sentir — por vezes, mesmo de existir.
Ele
Durante anos, os seus olhos mostram-lhe tudo o que de bom existia na sua vida.
Durante anos, os seus olhos deram-lhe a versão mais colorida da vida.
Durante anos, o que viu sempre se transformou em arco-íris. Não importava o filtro que usasse.
Ela
Naquele dia, o preto prevalecia mais do que o branco. Naquele dia, o preto pouco deixava ver.
Naquele dia, a escuridão que a guiava não a deixava ver nada além dos seus instintos.
Naquele dia, a intuição e os instintos chegaram…
Ele
Naquele dia, as cores estavam mais fortes do que noutros dias.
Naquele dia, nada o guiava, para além das estrelas coloridas e brilhantes que povoavam as imagens que os seus olhos lhe mostravam.
Naquele dia, as cores mudaram….
Eles
Cruzaram-se. Um breve e leve toque ajudou a parar o mundo, quando os seus olhos se encontraram.
Dentro de um olhar carregado de preto com leves sombras brancas, apareceram as cores. Nas cores existentes dentro do olhar brilhante, chegou a quietude da falta de cor.
Olharam-se menos que um segundo, mas partilharam uma existência entre eles. Partilharam, um com o outro, as cores, o preto, o equilíbrio entre o arco-íris, e a dualidade da cor.
Nenhum deles olhou para quem o outro era. O que aquele único e, para muitos, praticamente inexistente segundo significou só mais tarde perceberam.
Ela
Hoje, vejo diferente.
Hoje, vejo coisas que nunca soube que existiam.
Hoje, consigo ver! Ver de verdade. Não me limito a observar o passar da vida, das emoções.
Hoje…
Ele
Hoje, percebo que a vida nem sempre é um arco-íris.
Hoje, sei que também existe preto e branco.
Hoje, consigo ver além da nuvem de cor que sempre me acompanhou.
Hoje…
Ela
Mudou tudo, ou nada…
Somente a sua perceção da realidade foi alterada.
Revisitou momentos, reviveu o passado, e mudou.
Mudou o presente porque o pode olhar, porque se deu o direito de mudar.
Ele
Nada mudou, ou mudou tudo…
Reviveu momentos e deu-lhe a importância devida. Nada mais.
Revisitou o passado e percebeu que nada o iria alterar.
Não alterou o presente porque nada o tornava diferente. O caminho estava escolhido.
Ambos
Nenhum sabe como afetou a vida do outro. Sentem, somente, que aquele olhar cruzado por um milésimo de segundo alterou a visão de ambos, porque o equilíbrio chegou.
As cores são necessárias para colorir tudo, mas o preto e branco também, porque tudo pode ser relativizado e encarado de uma nova forma. Basta querer.
Por vezes, os mais insignificantes momentos da vida têm o maior impacto na nossa realidade, sem que nada o faça prever…