Maria João Amaral Graça

por Maria João Amaral Graça

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A tempestade irrompeu no momento em que o autocarro parou na Rua do Calvário. Amélia acelerou o passo em direção ao número 33, um edifício velho e bolorento, cujos vidros partidos das janelas e as fissuras monstruosas nas paredes lhe davam um ar sombrio. Subiu as escadas até ao terceiro andar e tocou à campainha. Uma mulher corpulenta, de nome Joana, abriu-lhe a porta.

— Passaram mais de trinta minutos da hora marcada — ouviu alguém reclamar.

— Peço imensa desculpa — justificou-se Amélia, embaraçada —, mas precisei de apanhar três transportes para chegar aqui.

— São-me indiferentes os seus motivos — retaliou uma mulher de idade avançada, sentada num cadeirão de veludo, com uma bengala na mão.

Eutanásia de Albuquerque era uma pessoa conservadora e de poucas falas. Desde que a filha morreu, fechara-se num mundo só seu, onde poucos entravam. Joana, a empregada da família há vinte anos, era uma das poucas felizes contempladas.

— Tenho algumas recomendações a fazer — disse a idosa. — Enquanto viver nesta casa, só pode circular entre o quarto, a casa de banho e a cozinha. Não a quero ver na sala e está proibida de entrar no cômodo ao fundo do corredor.

Amélia fingiu um sorriso amável e seguiu a senhoria até ao seu futuro quarto.

— Se achar que encontra melhor, agradeço que me diga imediatamente — pediu, antes de abrir a porta —, para não perdermos mais tempo.

— É… bastante prazeroso — mentiu a rapariga, ao reparar no quão minúsculo era o aposento, mas a senhoria já não estava ali para a ouvir.

Ao ver-se sozinha, Amélia pôde sentir o aperto do desamparo. Olhou para a cama, pequena demais para as suas compridas pernas, e sentiu um nó a formar-se na garganta, que rapidamente se transformou num rio de lágrimas. Tudo ali lhe lembrava um cemitério de quinquilharias, cujo odor a velho, impregnado nas paredes e móveis, se tornava nauseabundo. Abriu a janela e contemplou a rua durante alguns minutos, onde as poucas habitações se misturavam com o que restava das fachadas dos prédios em ruínas, sepultados na densa vegetação. Nesse momento, percebeu que batera no fundo do poço e que pior não poderia ficar.

Perdida nos seus pensamentos, recordou, envergonhada, as palavras da mãe no dia em que a largou num lar de idosos, e que acabaria por ser o seu sepulcro: «Tem cuidado, minha filha. Quem semeia mais tarde irá colher o que plantou.» Desprezou aqueles que gostavam dela, julgando não precisar mais deles. Foi ingrata e desleal. Tudo por causa de uma paixão que acabou por atirá-la para a rua da amargura, como um trapo velho sem utilidade. Viveu quinze anos à sombra de uma mentira, e, se não fosse ele a terminar, ainda estaria aos seus pés. Tudo o que achava que nunca lhe iria acontecer aconteceu. Todos os sentimentos que nunca pensou vir a sentir, sentiu… E não queria sentir, porque a dor era insuportável. Não queria lembrar, pois as memórias eram cruciantes. Não queria acordar, pois respirar tornara-se extremamente doloroso. Os “porquês” que invadiam a sua mente conduziam-na à loucura.

O que leva alguém a trair? Eis a questão. Seria uma escolha ou mera falta de compaixão? Falta de sensibilidade, de personalidade, de honestidade, de dignidade? Ou apenas falta de categoria? Uma dor imensurável, uma angústia que não sabia onde começava e acabava. A sua vontade era de dormir até que os olhos lhe doessem. Apenas para não sentir o peso da traição.

Amélia acordou na manhã seguinte, com a alma em frangalhos, mas tornava-se forçoso enfrentar a realidade. Apesar da tragédia que se abatera sobre os seus quarenta e oito anos, compreendia que a inércia a arrastava para um abismo sem retorno e que toda a dor acabaria por ter um fim. Só lhe restava esperar. Enquanto isso, obrigava-se a comer, porque tinha de se alimentar. Mais do que isso, recusava-se a fazer. Sentada na cama, buscava alguma coragem, quando ouviu uma suave melodia vinda da sala. Vestiu o roupão e dirigiu-se até lá, encontrando Joana a cantarolar ao mesmo tempo que encerava os móveis.

— Sente-se bem? — perguntou esta, ao reparar nos seus olhos inchados.

— Eu hei de ficar melhor, se Deus quiser — disse Amélia. E, estranhando ainda não ter visto a senhoria, perguntou: — A dona Eutanásia saiu?

— Ela vive noutra casa, na cidade — respondeu a empregada —, mas mantém este andar por causa de Isabel. Pobrezinha, morreu nova, com trinta anos. Enforcou-se no quarto porque se viu afastada pela mãe do homem por quem andava embeiçada. Aquela é que se pode dizer que morreu por amor.

— Ninguém morre por amor — discordou Amélia. — Eu acabei de ter um desgosto amoroso e ainda estou cá.

Nesse mesmo instante, a senhoria entrou em casa e, vendo Amélia confortavelmente sentada no sofá, reclamou:

— Começa cedo a infringir as regras.

— Lamento o que aconteceu à sua filha — disse Amélia, fitando a idosa, desta vez sem medo, como se, de repente, compreendesse a sua revolta, que, de alguma forma, justificava a frieza do seu coração.

— A culpa da sua morte foi toda minha — confessou inesperadamente a idosa. — Talvez o rapaz até fosse boa pessoa.

— Ou talvez ela não tenha percebido que a senhora só desejava o melhor para ela.

Amélia fitava a senhoria com carinho, vendo a sua própria mãe. Como gostaria de ter seguido os seus conselhos, sempre que a avisava que Miguel não era homem para ela. Ao invés de ouvir os seus motivos, afastou-a da sua vida. Esse seria o peso que carregaria consigo para todo o sempre.

Eram 3h da madrugada quando acordou sobressaltada com o som de pancadas na parede. Levantou-se e dirigiu-se à sala, que desaparecia no negrume da escuridão. De súbito, pareceu-lhe ver uma névoa esbranquiçada deslizar rapidamente em direção ao quarto de Isabel. Com o coração a bater desenfreado, foi até lá, encontrando a porta entreaberta.

Amélia entrou com medo e apressou-se a ligar o interruptor da luz. Quando o quarto se iluminou, os seus olhos admiraram-se ao ver dezenas de borboletas a esvoaçar sobre a cama de Isabel, envoltas num agradável aroma a flores. Um papel amarrotado caído no chão chamou-lhe a atenção. Levada por um impulso inexplicável, pegou nele e começou a ler:

«Mãe, não chores a minha morte, pois só ela me libertará da angústia que me consome. Há muito que morri por dentro, e ninguém conseguiria fazer-me amar novamente a vida. Espero que um dia me possas perdoar. Tua filha, Isabel.»

Amélia colocou a folha no mesmo lugar e permaneceu quieta durante alguns minutos, pensativa. De repente, julgou ouvir passos. Levantou-se sem fazer barulho e caminhou até à porta, mas, no momento em que estava prestes a sair, a senhoria entrou no quarto, mostrando-se surpresa por vê-la.

— Nunca conheci ninguém tão teimoso — disse, encolhendo os ombros. — Viu tudo o que queria?

— Tenho algo a dizer-lhe. Sinto que não foi por acaso que vim parar a esta casa — referiu Amélia, confiante. — Acho que Isabel me trouxe até junto de si. Ela desejava redimir-se por a ter abandonado, tal como eu precisava de reparar o erro de ter virado as costas à minha mãe. Podemos encarar isto como um recomeço e começarmos uma história nova. Daquelas que têm o poder de transformar vidas solitárias. O que me diz?

 

About the Author: Maria João Amaral Graça
Maria João Amaral Graça
Nasceu em 1976, em Lisboa, onde reside atualmente. Aos quinze anos anos, descobriu o gosto pela escrita. Licenciou-se em comunicação social e cultural. Exerceu jornalismo durante 1 ano, mas a dificuldade em conciliar a profissão de jornalista com a maternidade fê-la decidir por um trabalho mais tranquilo. Há vinte anos que é assistente administrativa, mas o sonho de publicar um livro continua vivo, levando-a a investir em cursos de escrita criativa e a participar em concursos literários. Criou o blogue "Aqui Há Histórias", onde escreve de tudo um pouco, e em qualquer género, porque o importante mesmo é nunca parar de escrever.