por Sónia Brandão

Quando és uma criança com uma mente inquieta, que vive para lá da realidade na maioria das vezes, por vezes torna-se difícil viver a vida.
Não me entendam mal. Eu vivi a minha vida com toda a plenitude: sorri, brinquei, chorei, fui muito feliz.
Mas, sempre que algo me incomodava ou contrariava, viajava para lugares criados dentro da minha cabeça.
Lugares onde podia ser o que quisesse, onde poderia viver as mais loucas aventuras sem que ninguém me incomodasse.
Era muito fácil estar sozinha, mesmo tendo pouco tempo para tal, mas sempre que me deitava deixava a minha imaginação seguir por onde queria.
Não sabia que os outros eram diferentes de mim. Achei, durante muito tempo, que todos o faziam. Mais tarde percebi que não era assim.
Só me apercebi dessa grande diferença naquelas férias de verão em que a minha mãe me deu o livro que marcou parte da minha vida: Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco. Ali começou a minha busca por histórias. Mesmo não sendo aquilo que se pode considerar o livro indicado para alguém a entrar na adolescência, com a vida cheia de dramas criados pela sua mente inquieta, foi ele que me abriu portas para um novo mundo.
A esse livro seguiram-se outros, que faziam parte da coleção do meu avô, desde As Mil e Uma Noites a outros clássicos.
Naquele verão, descobri que as palavras e as frases podem fazer a diferença, nem que seja por breves momentos, na minha vida.
Comecei a escrever.
Timidamente, ao início, nem sabia o que queria escrever. Escrevia o tudo ou o nada, dependia do momento. Mas escrevia. Não diários, nunca o fiz, mas realidades alternativas à minha.
Inicialmente, não partilhei nada. Era meu, para mim, somente isso.
Com o passar dos anos, fui escrevendo mais e mais. A escrita ajudou-me nos momentos mais baixos, nos momentos de dor, nas perdas da vida. Foi através dela que mantive, pelo menos em parte, a minha sanidade mental naqueles anos.
Essas palavras nunca serão partilhadas. São demasiado pesadas, demasiado dolorosas para as reler sequer.
Em algum momento, participei em concursos literários, sem sucesso.
Aquilo que me motivava a escrever começou a perder-se.
Comecei a não gostar das frustrações que ela me provocava. Talvez porque a via de uma forma distorcida. Queria o sucesso. Era uma miúda de vinte e poucos anos ainda perdida no sofrimento anterior, e tudo parecia ser uma luta inglória.
Deixei de escrever.
Durante uns dez anos, ou mais, não escrevi uma palavra. Nem para mim, nem para ninguém. Chateei-me de verdade com a minha mente — mais do que com qualquer outra coisa. Queria castigar-me por não estar a chegar onde queria.
Durante esse tempo, fiz crescer a minha biblioteca.
Li tudo o que encontrei. Reli os livros que me davam prazer, que me faziam sonhar.
Reencontrei os clássicos, os génios que nos fazem questionar, os mágicos que criam histórias que nos levam para lá da realidade.
No meio de tudo isso, fui vivendo, escolhendo caminhos e perguntando-me se ainda sabia escrever, se ainda conseguia formar frases, parágrafos que transmitissem algo aos outros.
Em 2023, voltei.
Voltei a escrever por desafio.
Não meu, mas sim das pessoas que me rodeavam, incentivada por aqueles que pouco ou nada sabiam dessa minha paixão.
Comecei com pequenos textos no Instagram, que só serviam para provar a mim própria que o podia fazer.
Encontrei, por acaso, esta plataforma e arrisquei.
Arrisquei partilhar textos, alguns pessoais, outros irreais, que vivem somente na minha imaginação.
Voltei a descobrir o prazer da escrita, o poder das palavras — por vezes, nunca ditas em voz alta.
Algumas pessoas perguntaram-me diretamente: «Porque paraste de escrever?»
Nunca ninguém o percebeu. Nem mesmo eu. Mas talvez tenha sido para, agora, o fazer tão naturalmente, sem os medos do passado.
Como uma querida amiga me disse no ano passado: «Tu estás onde devias estar. Tenho mesmo a sensação de que voltaste ao caminho certo.»
Esta é a verdade. Voltei a ser eu, de forma mais completa.
A escrita completa-me e faz-me sonhar, faz-me viver de uma forma diferente. Não o consigo explicar por palavras, mas sei a diferença que faz para mim.
Uma paixão antiga, mesmo antes de o ser, que voltou com toda a força.