por Estefânia Barroso

Há momentos na vida que, pela sua intensidade, pela força com que nos socam diretamente no estômago, nos alteram no mais profundo do nosso ser. Muitas vezes, estes acontecimentos, estes momentos, alteram-nos de tal modo que sentimos que existiu um «eu» antes daquela situação e um «eu» depois daquele momento.
Da vida que «me foi acontecendo» ao longo dos anos, uma certeza eu tenho: não foram as fases boas, os acontecimentos bons, que me fizeram refletir sobre a vida e sobre a pessoa que sou. Não foram as fases boas que me obrigaram a analisar-me, a perceber se e onde estava errada, a pensar na vida que levava. Pelo contrário: os momentos bons, aquilo que gosto de denominar de verões da minha vida, são vividos, por mim, no aconchego, no bem-estar, sem grandes lugares a reflexões sobre mim, os outros ou o mundo. Caminho, ao de leve, por uma vida que me parece, também ela, leve, sem dar grande atenção àquilo que poderão ser sombras a acumular-se no horizonte. Sou um ser que se limita a viver e a aproveitar a vida com o melhor que ela me possa dar.
Contudo… todos sabemos que a vida não é constituída apenas por uma doce sucessão de momentos bons. Quer queiramos, quer não, mais cedo ou mais tarde, a vida prega-nos, sem que estejamos à espera, rasteiras que nos tiram o tapete e nos fazem cair com toda a força no chão, ao ponto de sentirmos que nada poderá ficar inteiro dentro de nós. Sentimos, por momentos, que nunca nos conseguiremos levantar dessa queda aparatosa que a vida nos fez sofrer em demasia. Não somos mais do que uma massa informe que procura sobreviver num mundo que ficou, subitamente, feio e sombrio, num inverno que parece querer prolongar-se no tempo.
Mas sabem que mais? Tendo passado por bons e maus momentos e tendo não só passado pelos maus momentos, mas também superado-os, posso afirmar hoje, com toda a certeza, que foram essas situações em que a vida me pregou uma rasteira que me levaram a parar, sentar, pensar e analisar. Sentar, pensar e analisar não só a vida e o mundo que me rodeia, mas, acima de tudo, a mim mesma. «Seria eu apenas uma vítima dos acontecimentos?» «Teria algum tipo de culpa para as situações terem acontecido da forma que aconteceram?» Esse mergulho dentro de mim mesma, à procura de respostas, nem sempre foi agradável. Nem sempre gostei do que vi e percebi. Era bem mais fácil pensar que o peso da culpa pertencia apenas e só ao outro, à vida, ao destino!…
Essa viagem ao centro de nós mesmos é longa, sinuosa, difícil. Quase preferiria não a fazer. Mas não tenho dúvidas de que foram essas viagens dentro de mim, essas análises às situações e ao meu «eu» que me fizeram perceber, crescer e amadurecer. Descobri-me, no fim da viagem, mais forte, diferente daquela que era. Descobri-me mais conhecedora do ser humano e das suas dores. Descobri-me mais tolerante para com os outros, porque percebi que o erro não está apenas de um lado. Descobri-me uma pessoa melhor. Percebi, por fim, que são os invernos da vida que traçam o caminho para o autoconhecimento e para o conhecimento do outro.