Sofia Reis Cardoso

por Sofia Reis Cardoso

Partilhar:

Parece clichê quando digo que a minha vida mudou completamente aos 30 anos, mas a verdade é que, oito dias depois de ter completado esta idade, tão desejada por tantos, dei entrada no hospital e apenas saí 50 dias depois, sendo que, em 20 deles, estive nos cuidados intensivos.

Qualquer pessoa que viva um processo de internamento longo é confrontada com uma panóplia de vivências que jamais permitem que se mantenha a mesma pessoa.

Por todas as circunstâncias e mais algumas, foi o que aconteceu comigo. Sinto que ainda hoje recupero dessas mesmas vivências e tento entender muitas delas. Não me considero traumatizada e tenho, inclusive, medo de esquecer aquilo que vivi, daí a minha necessidade e desejo de passar tudo a escrito.

O processo de recuperação da minha doença revelou-se o início do meu processo de autodescoberta. Levou-me a equacionar a minha vida, a todos os níveis, até àquele momento; a questionar tudo o que tinha feito, quais os erros que tinha cometido, o que era necessário mudar, por onde tinha de começar. Ao longo do tempo, as mudanças foram físicas e psicológicas, e de uma intensidade atroz. 

Tem sido o processo mais avassalador, mas também revelador da minha vida. Pela primeira vez, despi-me das obrigações com que sempre vivi: de querer agradar a toda a gente, de fazer aquilo que toda a gente queria, de responder e agir em conformidade com o desejo do outro. Não tinha sequer capacidade para o fazer. Aprendi, das mais diversas formas, que tinha de fazer apenas aquilo que o meu corpo e a minha mente me permitiam, independentemente daquilo que todos os que me rodeavam desejavam.

Implicou que estivesse ausente da minha vida profissional durante 11 meses, o que nunca tinha acontecido, nem por uma semana, por motivo que não fossem férias. Quero com isto dizer que o impacto foi em todas as áreas da minha vida.

A entrada neste mundo do autoconhecimento foi de tal forma intensa, que se tornou um caminho sem volta. Tudo o que tenho descoberto sobre mim leva-me a agir de forma mais consciente e com o intuito de me realizar, proporcionar-me experiências novas e felizes, compreender-me, fazer escolhas sobre as relações que quero manter e o tipo de pessoas que quero ter perto de mim, definir objetivos e metas e, com tudo isso, aumentar cada vez mais o conhecimento sobre mim própria, agindo e reestruturando a minha vida de acordo com isso.

Num mundo ideal, este seria um processo estanque, com um princípio e um fim, mas isso é impossível e seria totalmente entediante para a vida real. Para uma grande perfeccionista como eu, é difícil entender tudo isto, mas a verdade é que é impossível termos tudo sob controlo e alcançar 100% de perfeição em tudo na nossa vida — pelo qual estamos em constante resolução de desafios internos, que podem até alcançar uma boa fase de resolução, mas, ao mesmo tempo, estamos a desencadear o início de resolução de outras questões, e isto vai acontecendo de forma sucessiva e, muitas vezes, sem nos apercebermos. Nem todas as questões têm a mesma complexidade, nem o mesmo tempo de resolução, e é isso que a vivência e a maturidade nos levam a entender.

Este processo, que leva já mais de dois anos, fez-me sentir, inicialmente, completamente perdida de mim mesma. Mas é engraçado como me levou, da mesma forma, a descobrir-me como nunca antes tinha acontecido.

De alguma forma, fui obrigada a parar depois do grito do meu corpo físico e todas as minhas emoções começaram, finalmente, a sair cá para fora, ao atingir estados-limite de sofrimento que só aceitando vivê-los e entendê-los me permitiram chegar ao ponto de conexão comigo mesma em que me encontro hoje.

Mas é muito fácil perder-me neste processo. A autodescoberta levou-me e leva-me, como disse, a descobrir e perceber coisas muito boas sobre mim. Mas também me leva a lugares que me fazem sentir emoções e até recordar situações muito desafiadoras e que, na verdade, doem, doem muito, ao ponto de doerem fisicamente.

E é aqui que eu percebi que podemos crescer muito ou entregar-nos simplesmente ao papel de vítima. O papel de vítima não nos deixa ir mais além, mas sobre isto terei muito mais para desenvolver noutro texto e momento mais oportunos.

O que eu gostava de dizer, agora, é que é fácil perdermo-nos, no sentido em que a autodescoberta nos leva a um processo de autocura de muitas questões internas, mas, ao mesmo tempo, pode tornar-se tão violento e desafiador que nos desconectamos de nós próprios, perdemos o centro, desistimos.

Por vezes, é mais fácil olharmos e distrairmo-nos com o outro e não connosco, reagirmos e agirmos mais de acordo com os estímulos externos e da “sociedade” em que vivemos, quando, no fundo, este é o caminho mais bonito que podemos fazer ao longo da nossa vida.

E que caminho é este? O de olharmos para nós, olharmos para dentro e conhecermo-nos melhor do que ninguém.

About the Author: Sofia Reis Cardoso
Sofia Reis Cardoso
Escrever, ler e dançar são as suas formas preferidas de passar o tempo. Estudou Direito, trabalha no Departamento de Contencioso de uma Seguradora, mas é nas letras e no papel que encontra o seu refúgio e a sua maior concretização. Natural de Tomar, entregou o seu coração a Lisboa aos 18 anos e é com a capital que mais se identifica. A Emootiva é uma extensão daquilo que a apaixona e onde quer continuar os seus passos, juntamente com outras escritoras.