por Sofia Reis Cardoso

Algures, num momento que eu não sei identificar exatamente quando foi, perdi-me do meu caminho e da importância de me amar a mim em primeiro lugar. É cliché, mas é mais importante do que tudo. Não perder o meu amor-próprio, seja qual for o momento, a circunstância, as pessoas que tenha à minha volta.
Tenho-me sentido verdadeiramente desconectada de mim própria. Sinto isto há alguns meses e noto que, em alguns dias em especial, está particularmente evidente. Uma das coisas que mais aprecio em mim, e que me diziam também apreciar, é a minha forma de estar, totalmente presente, alheia do ruído e da multidão à volta, a ouvir o outro em pleno. Ultimamente, sinto que, até quando estou sozinha, estou desconectada de mim e daquilo que estou a sentir. E isto preocupa-me. Em primeiro lugar, importa ter clareza sobre isso e essa eu tenho. Mas o passo seguinte é identificar que essa situação está a ocorrer e contrariá-la, mas aí é que tem sido o grande desafio.
A minha desconexão comigo mesma e com o que está à minha volta levou-me a regredir no caminho bonito que eu iniciei em 2022, após o diagnóstico da minha doença, e mais intensamente em 2023, quando comecei a ser acompanhada pela minha Patrícia, pessoa que desde essa altura é presença, luz e orientação na minha vida.
Em todo o processo que desenvolvi com a sua ajuda, aprendi tantas coisas, mas destaco o gostar de estar sozinha, de fazer atividades sozinha, desfrutar da minha companhia e do silêncio da minha casa. Aprendi, ainda, a lidar melhor com as pessoas que me rodeiam, afastando as que nada mais me acrescentavam, e a estar, com maior respeito por mim própria, na relação com as que desejo ter à minha volta.
Mas, conforme referia, sem me aperceber de como e quando, voltei a esquecer-me destas premissas que procurei implementar no meu dia a dia; voltei a deixar de viver em função da minha vontade e daquilo que era realmente importante para mim; voltei a permitir que me falassem e tratassem sem o respeito que eu mereço; esqueci-me dos meus princípios, dos meus valores e dos meus limites e coloquei em primeiro lugar uma outra pessoa, centralizando os meus dias e os meus pensamentos nela, encolhendo-me para lhe agradar.
Confundi tudo novamente. Confundi o que é o amor. Confundi o que é o amor-próprio. Banalizei-me, humilhei-me, tornei-me pequena. Desvalorizei o que é ser mulher e como uma mulher deve agir. Tomei consciência, é verdade, mas escrevo num momento em que me sinto em dor, em que assimilar toda esta informação é muito recente, o que ainda não me permite agir de acordo com aquilo que me vai levar à vida que eu desejo e que eu sei que mereço.
Terminei esta ligação. Afastei-me! Isso é bom, em primeira linha. Mas todos os dias me pergunto: por quanto tempo? Quanto tempo vou aguentar não cair novamente na tentação de enviar uma mensagem, fazer um telefonema, passar no local de trabalho para o abraçar por minutos, enviar uma música, verbalizar que tenho saudades? Voltei a viver dependente da mensagem, do beijo de bom dia, da chamada, do calor daquela pessoa. Esqueci-me da Sofia que tinha conquistado e assumi, muito rapidamente, o papel daquela Sofia que durante muitos anos viveu assim, desta forma dependente e, diria até, humilhante. Vivo com medo de cair novamente na tentação, porque, como em tudo na minha vida, vivi este amor de uma forma muito intensa. Também me afastei de uma forma muito intensa, repentina e decidida, mas o medo de voltar atrás é grande.
Sei que não quero, Tenho a certeza de que não quero voltar porque, nesta história, vivemos tudo de forma muito díspar. A minha realidade era muito distinta da realidade desta pessoa, que eu acredito que amei e, na verdade, talvez ainda ame. Ou talvez seja só o efeito da dependência que me faz acreditar que era amor. Tal como disse uma amiga que eu adoro e que me fez rir: «Eu dava a padaria inteira a este homem e, em troca, ele dava-me as migalhinhas do pão que comia e eu julgava-me feliz com isso.»
Quando verbalizava que as migalhas não me satisfaziam e que não era essa a realidade que eu queria viver, a conduta deste homem era tão perigosa que me levava a acreditar que eu estava errada, que a culpa era minha. Por um lado, esta pessoa tinha-me como sua, sua mulher, seu amor, em todos os aspetos da palavra. Mas, ao contrário daquilo que me queria fazer acreditar, a verdade é que eu não o tinha, nunca o tive, nem nunca foi meu. Os momentos mais intensos e prazerosos que tivemos, associados à troca de amor e prazer que demos um ao outro, para mim representaram toda a entrega, todo o amor, intensidade e vontade de corresponder e ser correspondida. Mas, do outro lado, aquela pessoa, face à minha fragilidade, conseguia-me fazer acreditar, por momentos, que gostava verdadeiramente de mim, mas deixava-me na ansiedade de não saber o que esperar nos minutos, horas e dias seguintes.
Como já escrevi numa outra crónica, não sei amar pela metade e também não quero ser amada dessa forma. Não quero ter um horário para manifestar e receber amor. Quero viver um amor pleno. Quero ser escolhida todos os dias, sem dúvidas, sem incertezas, em privado e em público. Quero ter o privilégio de receber esse amor e o desejo de honrar o homem que me complete e me dê tudo aquilo que eu quero alcançar em plenitude. Amor é muito mais do que sexo, muito mais do que horas de prazer e orgasmos. É muito mais do que uma troca de fluídos e de corpos. A verdade é que existiu uma conexão, entre mim e este homem, que me fazia acreditar que transcendia o físico, que a nossa ligação era tão forte que transcendia o corpo, que os nossos corações se tocavam e se sentiam verdadeiramente. E eu posso estar errada, mas ainda acredito que isto aconteceu, ou, então, é só a minha ingenuidade e dificuldade de reconhecer o que é o amor verdadeiro. E é isso que dói, que custa muito ultrapassar: o aprender a viver de novo na calmaria, sem o sistema nervoso sempre em alerta que me provoca dependência e sofrimento.
Uma vez mais, os sinais estavam lá todos, os comportamentos diziam tudo aquilo que as palavras não diziam, ou tentavam inverter, mas a atenção plena no comportamento fez-me perceber que não era o caminho. Tentava negar, porque a imensidão das palavras fazia-me acreditar que era desejada, amada. Mas o amor fora das quatro paredes e fora daqueles momentos era escasso, inconstante, inexistente, cronometrado, partilhado e nunca, mas nunca, foi isso que eu quis para mim, mas o que é certo é que foi assim que eu vivi os últimos meses.
Ainda dói. Vai continuar a doer. Mas, como toda a tempestade, vai passar e o sol vai voltar a nascer.



