por Maria Reis

Aquele olhar trazia o brilho da esperança. Aquelas palavras traduziam felicidade:
— Maria, doce Maria! Ele abraçou-me! Ele beijou-me! Ele disse que me ama!
Decorria o ano de 1966. Eram tempos de tabus, proibições. Vivíamos numa sociedade intolerante e segregadora. Muitas regras de comportamento eram caracterizadas por serem extremamente cruéis. Era frequente certos atos praticados serem severamente punidos, contudo, apenas penalizando quem deveria ser apoiado, não se responsabilizando quem, na verdade, deveria ser chamado a cumprir os seus deveres consequentes do proibido comportamento.
Ela era mãe, uma mãe sofredora! A sua menina não tinha pai. Era filha de pai incógnito. Usava-se, sim, a palavra incógnito, quando seria mais correta a palavra cobarde, palavra essa que escondia e isentava…
Era, pois, uma cobardia permitida, protegida por lei!
Castigava-se a mãe, a «mãe solteira», por ter acreditado. Pior ainda, castigava-se uma criança que, por toda a sua vida, seria rotulada com a designação «filho de pai incógnito».
«Mãe solteira», «filho de pai incógnito» eram manchas negras! Quem era assim estigmatizado enfrentava uma vida dura e cruel. Tínhamos uma sociedade preconceituosa e punidora, que ostracizava mãe e filho. Aquela criança seria sempre filha do pecado, aquela mãe seria sempre uma pecadora.
Assim me vi perante um drama de vida naquele ano, naquela escola, no início da minha carreira profissional. Ato contínuo à minha apresentação, vieram algumas recomendações:
Não deveria relacionar-me com determinada colega. Ela era uma perigosa companhia devido ao seu comportamento altamente duvidoso. Era uma mãe solteira.
E veio também o conselho:
— Tenha cuidado! Não queira ser vista na companhia dela, correrá o risco de ver a sua reputação comprometida. Toda a gente a conhece pela sua má conduta…
Em boa verdade, eu era a colega caloira e poderia parecer, até, algo indefesa. Pela primeira vez, saía da minha zona de conforto e viera para a grande cidade. Estaria a ser vista como aquela «criaturinha frágil» a precisar de proteção? Puro engano! Eu estava apenas a ser usada. Eu seria mais um estratagema, mais uma arma de arremesso para reforçar a humilhação e o desprezo relativamente a quem era um alvo a abater! E, grande ironia: vi-me «lançada à fera» após me terem avisado da sua maldade…
Pois, bem, a cerca de quinhentos metros do edifício principal da escola havia uma pequena dependência com duas salas de aula. Entre as salas havia uma porta por onde se podia comunicar. Aí fomos colocadas eu e a colega com quem não me devia relacionar. Confesso, num primeiro impacto, fiquei algo receosa. Como deveria comportar-me?
Acontecia, porém, que eu não era tão ingénua como poderia parecer. Comecei por me mostrar amistosa com a colega que, de uma forma afável, me veio cumprimentar fazendo-me sentir bem-vinda. Não precisei de muito tempo para perceber que estava perante alguém que tinha uma vida sofrida, vítima de uma crueldade onde imperava uma hipocrisia. Assim, cedo me deixei conquistar por aquele olhar tão meigo, por um coração sofredor, mas tão rico de bondade!
Nasceu, sim, uma linda amizade. Nasceu uma forte cumplicidade que nos uniu nos bons e maus momentos. Ríamos e chorávamos partilhando as nossas alegrias e as nossas tristezeas. Nos nossos sofrimentos íamos fortalecendo aquela esperança de que a vida nos havia de compensar. O nosso lema era não desistir nunca dos nossos sonhos. Ambas sonhávamos muito!
Para ela, eu passei a ser a «doce Maria» e, para mim, ela passou a ser não apenas uma boa amiga, mas também uma fiel e dedicada confidente, além de ser também excelente conselheira.
Havia aquela igreja dos Capuchinhos onde ela procurava alguma paz, conforto e, inclusivamente, proteção. Ali, ela sentia-se aceite e respeitada. Com alguma frequência, ela refugiava-se em momentos de confissão. Era nos momentos em que o sofrimento mais pesava, em que mais necessitava de palavras de conforto.
E aconteceu o dia em que o inesperado aconteceu…
Mais uma vez, ela procurava o conforto, palavras de esperança e, surpresa… o amor aconteceu!
— Maria, doce Maria! Ele saiu do confessionário para me abraçar!
Ele era um jovem frade capuchinho. Também ele foi conquistado por aquele doce sorriso, aquele coração…
— Maria, doce Maria! Ele diz que me ama!
Sim, nascia um amor!
Este amor tinha tanto de belo como de difícil. Era um amor rigorosamente proibido, severamente penalizado. Viver este amor na sua plenitude quase parecia algo impossível de alcançar.
Naquela sociedade intolerante em que, então, vivíamos, não era fácil esperar uma aceitação. Havia enormes barreiras a transpor.
Desde o primeiro momento acompanhei esse amor. Fui cúmplice do secretismo que o envolveu durante algum tempo. Ainda hoje sinto a doçura daqueles momentos em público em que fui a companhia necessária, a única por eles consentida, e que evitava que fossem levantadas suspeitas…
Na verdade, um grande amor não pode ficar escondido. Um grande amor precisa ser vivido sem medos, em liberdade!
Havia barreiras que, a ser ultrapassadas, exigiam coragem, algo que não lhes faltou! Foi grande a resiliência nessa tão difícil luta. Não houve desistência. Aquele amor saiu vencedor!
E o desejado aconteceu:
— Maria, doce Maria! Vamos casar!
Houve uma criança que ganhou um pai que a amou!
Houve uma mulher que passou a viver o amor com que sempre tinha sonhado!



