por Inês Biu Faro

A partilha que se segue é fruto de um trabalho de casa que me foi pedido pela minha psicóloga. Por saber que me expresso tão bem por escrito, sou desafiada, em todas as consultas, a trabalhar um pouco mais de mim para mim. Acredito que fará tão bem a quem ler quanto me fez bem escrever.
À medida que amadureço, acredito cada vez mais que não existe em mim um confronto entre mundos (real vs. fantasia), mas uma procura de equilíbrio entre ambos. Para que eu não perca os meus sonhos, mas também não me perca neles.
O mundo dos contos de fadas que criei foi sempre um refúgio, uma fuga da realidade, que, num determinado momento, não sinto que esteja errada e, noutros momentos, por fugir, deixo de viver uma realidade que será bem melhor.
Cresci, sobretudo, com o mundo maravilhoso da Disney, onde as princesas são todas lindas, esbeltas, bem vestidas, cabelos bonitos, muitos suspiros, amores impossíveis e quase todas órfãs de mãe ou com uma figura maternal muda ou pouco participativa (as madrastas bruxas não contam).
Ora, tudo isto, além de afetar a minha autoestima e a relação com o meu corpo, fez com que eu recorresse ainda mais ao meu pai enquanto porto de abrigo, amigo e figura de segurança. Esperando que a minha mãe fosse uma daquelas rainhas ou fadas madrinhas muito fofinhas, que apoiam sempre as suas princesas, sem nunca as contrariarem ou exigirem o que quer que fosse delas. Acresce ainda o facto de todas estas meninas serem muito solitárias, quer pelas suas características, quer pelas circunstâncias das histórias, e passavam a imagem de que estarem sozinhas, ou só com animais, era melhor do que estarem acompanhadas (se bem que sempre estive rodeada de amigos).
Sabe-se lá como, acabavam por ser sempre postas em perigo pelos vilões e salvas pelos príncipes. Os primeiros: feios, maus, invejosos, cruéis. Os segundos: altos, espadaúdos, bonitos, fortes, valentes e faziam qualquer coisa para salvar uma rapariga que só tinham visto uma vez na vida.
Não só comecei a acreditar no amor à primeira vista, como também que precisava de ser conquistada por meio da salvação de algum mal ou alguma pessoa ou situação má. Claro que estas ideias tinham tudo para não correr bem. Deixando-me com ideias erradas quanto à parentalidade, à relação com os pais, à autoestima e ao amor.
Eu não tenho de ser salva por ninguém, a não ser por mim mesma, a menos que seja algo real, um acidente, por exemplo. A minha mãe é tão importante quanto o meu pai e, de alguma maneira, hei de criar um equilíbrio entre eles em mim, aos meus olhos. Convenço-me cada vez mais de que um não é mais importante que o outro só porque têm linguagens e maneiras de comunicar diferentes.
A minha autoestima, essa, é uma missão de vida! Só há relativamente poucos anos é que comecei a aceitar que não tenho de acordar bem-disposta todos os dias; que desmaquilhada sou tão ou mais bonita do que com as «tintas» na cara, e que as uso porque quero e quando quero. Também comecei a aceitar que gosto mais de umas partes do corpo do que de outras e está tudo bem. O exercício e a boa alimentação fazem parte do caminho para a aceitação total. Até lá, vou gostando um pouco mais de mim todos os dias.
Quanto ao amor, não era só a questão da salvação, mas também de ser esbelta, cantar com os passarinhos, ser alta e bonita. No meu imaginário, aqueles desenhos animados, assim como as Barbies, eram o ideal feminino imposto pela sociedade e para a sociedade. E eu enchia-me dos rótulos totalmente opostos a estes! Baixinha, gordinha, míope, sem noção da minha beleza e com medo da exposição pública. Faziam-me acreditar que, assim, nenhum homem me quereria, me aceitaria; e, a querer, seria apenas escondida. Todos estes pensamentos começaram a ser mais bem trabalhados e ultrapassados por volta de 2021.
Ora, antes de tudo isso, limitei-me a mim mesma. No mundo em que me refugiava, eu era sempre amada, fosse qual fosse o meu aspeto, o meu humor, os meus defeitos e qualidades. Sem me aperceber de que, na vida real, sou igualmente amada e querida por tudo isto.
A maturidade e os seus desafios ajudaram-me a entender que ter um véu cor-de-rosa sobre a vida é muito bom. No entanto, se conseguir tirar esse mesmo véu sempre que for preciso, sempre que eu quiser, verei algo muito melhor. A realidade tem tanto de bom ou melhor do que um mundo imaginário. E também tenho aprendido a mostrar a mim mesma a minha beleza.
Por exemplo: «Ai, vês mal e já não gostas de lentes de contacto?» Óculos giros. «Ai, os braços são gordos?» Roupa que ajude a esconder, exercício físico e muita aceitação. «Ai, não gostas da barriga?» O mesmo que faço para os braços, com doses ainda maiores de aceitação, sem esquecer de cuidar da alimentação e beber muita água. «Maquilhagem?» Só para realçar, não precisas de mais, miúda. «Pernas gordas?» E então? São fortes e adoro caminhar. É o meu corpo!
Sou baixinha, com um banco ou um escadote também chego ao céu! E um dos melhores e mais engraçados ensinamentos da minha mãe é de que os melhores perfumes vêm em frascos pequenos.
Ainda quanto ao amor e à questão da salvação, é estranho pensar que eu precisava ou queria salvação, como todas as princesas, mas acabava sempre a ser eu a salvar, a cuidar. Então, salvava ou era salva? Em que ficamos?
A solução passa por aceitar que eu me salvo a mim mesma, cuido-me e também aceito os cuidados e amor que me dão, da mesma maneira que espero que o aceitem da minha parte. Parar de fugir de quem me quer bem também faz parte do meu caminho, sobretudo quando me é dito que gostam de mim por ser bonita, inteligente e divertida. Quando, há uns anos, eu achava que gostavam de mim por ter peito voluptuoso, rabo redondo, lábios grossos e olhos bonitos, agora entendo cada vez melhor que é a minha inteligência e o meu bom coração que mais atraem, aceitando que eu também tenho de ver isso, em mim, primeiro do que toda a gente!
Amor, para mim, é dádiva, é entrega, é empatia, é das melhores e mais inexplicáveis sensações que o ser humano pode sentir. E, ainda assim, eu limitei-me sempre, aceitando apenas uma percentagem do todo que me queriam dar. Por não me achar suficiente. Por não ser uma princesa da Disney! Mas o que sei eu sobre «ser suficiente»? Tenho de o ser para mim e hei de o ser para alguém, ou não, mas parar de procurar «ser suficiente» e «ser eu mesma»! Só eu posso decidir se sou ou não uma princesa, e sou! E, agora, quero e aceito todo o amor e cuidados que me derem.
Chegando ao momento em que as ideias estão a findar, não quero terminar sem escrever as comparações que, até há bem pouco tempo, fazia com as princesas e que, no meu mundo, ainda faço: Adoro livros, como a Belle (A Bela e o Monstro). Tenho pé pequeno (Cinderela). Quando posso, durmo imenso como a Aurora (A Bela Adormecida). Canto por tudo e por nada, como a Branca de Neve (Branca de Neve e os Sete Anões). Sou lutadora e resiliente (Mulan). Não suporto injustiças, como a Tiana (A Princesa e o Sapo). Muitas vezes sinto-me fora do meu mundo, como a Ariel (A Pequena Sereia). E, tal como a Jasmine, acredito sempre que a força do amor vence tudo (Aladdin).
Agora, no meu caminho, o que mais quero é: ser corajosa, como a Mérida (Brave); livre, como a Pocahontas (Pocahontas); independente, como a Elsa (Frozen); conhecer mais de mim mesma, como a Riley (Divertida-Mente); sem nunca perder a minha essência bonita e pura, como a Anna (Frozen), tampouco o meu sentido de entreajuda e empatia, como a Mirabel (Encanto).
Posso viver na Disney e está tudo certo, mas a realidade será sempre melhor. Encontrarei o equilíbrio, assim como encontrarei um amor cada vez maior por mim mesma.



