por Sofia Pereira

A vida tem esta particularidade incómoda: não nos permite escolher todas as pessoas com quem nos cruzamos.
Escolhemos os amigos. Escolhemos quem deixamos entrar na nossa intimidade. Mas não escolhemos todas as pessoas com quem trabalhamos, convivemos ou somos obrigados a partilhar espaços, responsabilidades e pedaços dos nossos dias.
Nunca tive dificuldade em admitir que há pessoas de quem não gosto.
Não gosto. Ponto.
Não temos de gostar de toda a gente, da mesma forma que não espero que toda a gente goste de mim. Há feitios que não combinam, formas de estar que chocam, pessoas com quem não existe qualquer afinidade. Faz parte.
O que me custa não é não gostar. O que me custa é descobrir a maldade.
É perceber que, por detrás de um sorriso, pode existir uma intenção menos bonita. Que algumas palavras de amizade são apenas palavras. Que há quem abrace pela frente e apunhale pelas costas. Quem elogie hoje e destrua amanhã. Quem se aproxime por interesse e desapareça quando já não precisa.
Essas pessoas inquietam-me.
São os lobos vestidos em pele de cordeiro.
Um lobo que se apresenta como lobo preocupa-me menos. Sei o que tenho pela frente. Sei onde estou a pisar. Sei que devo manter distância.
O problema é o lobo que aprendeu a balir. Esse engana. Chega vestido de simpatia, preocupação e bondade. Observa. Aproxima-se. Conquista espaço. Escuta-nos. Ganha a nossa confiança. Até ao dia em que a pele cai. E aparecem os dentes.
A vida ensinou-me que nem todas as pessoas têm os mesmos princípios e valores do que eu. Não me incomoda que pensem de forma diferente. Ainda bem que não somos todos iguais. Mas há coisas que, para mim, não são negociáveis. Lealdade. Honestidade. Respeito. Gratidão. Carácter. E aquilo que eu nunca faria a alguém pode ser feito a mim.
Há quem minta sem pestanejar. Quem manipule. Quem use as fragilidades dos outros em seu benefício. Quem não suporte ver alguém feliz. Quem precise de diminuir os outros para se sentir maior. Quem faça do boato uma arma e da mentira uma verdade repetida até alguém acreditar nela.
E o mais curioso é que temos de continuar a viver no mesmo mundo que essas pessoas. Às vezes, temos até de as ver todos os dias.
Nem sempre podemos virar costas e desaparecer. O trabalho, a família e a própria vida obrigam-nos a conviver com pessoas que nunca escolheríamos para fazer parte do nosso círculo. E foi aí que aprendi uma das lições que mais paz me trouxe: conviver não significa confiar.
Posso ser educada sem ser próxima. Posso falar sem contar. Posso ouvir sem acreditar. Posso partilhar um espaço sem partilhar a minha vida. Posso cumprimentar alguém e não lhe abrir a porta de casa, nem a porta da alma. E posso colocar alguém no lugar que merece sem fazer barulho.
Também aprendi que ser boa pessoa não significa ser ingénua. Nem permitir tudo. Nem dar oportunidades sem fim a quem já nos mostrou, mais do que uma vez, quem é.
Os limites não são maldade. São proteção.
Talvez a parte mais difícil seja não permitir que aquilo que nos fazem mude aquilo que somos.
Se me mentiram, não preciso de mentir. Se me traíram, não preciso de trair. Se falaram de mim pelas costas, não preciso de fazer o mesmo. Se tentaram magoar-me, não preciso de devolver a dor. Porque os meus valores não podem depender do comportamento dos outros. Se dependessem, deixariam de ser valores.
Hoje já não sinto necessidade de desmascarar ninguém. O tempo encarrega-se disso. As máscaras pesam. E ninguém consegue usá-las para sempre.
Um dia cai uma palavra fora do lugar. Noutro, surge uma atitude que não combina com o discurso. Depois aparece uma contradição. Uma mentira. Um gesto. E a pele de cordeiro começa a rasgar.
Quando isso acontece, não preciso de fazer grandes discursos. Observo. Guardo. Aprendo. E mudo aquela pessoa de lugar na minha vida. Porque nem toda a gente merece o mesmo lugar.
Há pessoas que merecem sentar-se à nossa mesa. Outras ficam à porta. E há aquelas que devem ficar longe. Não por vingança. Por paz.
Continuarei a encontrar pessoas de quem não gosto. E haverá pessoas que não gostam de mim. Está tudo bem.
Não preciso de ser amada por todos. Preciso de chegar ao fim do dia, olhar para mim e reconhecer a pessoa que vejo. Com os meus defeitos. Com o meu feitio. Com os meus erros. Mas também com os meus princípios.
Não posso escolher todas as pessoas que se atravessam no meu caminho. Posso escolher o lugar que lhes dou.
E, quando descubro que aquele cordeiro tinha dentes, já não perco tempo a tentar perceber por que razão morde. Dou um passo atrás. Guardo a lição. E sigo. Sem trocar a minha pele pela dele.



