Jéssica Machado

por Jéssica Machado

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A vida é um puzzle que nunca está completo e algumas pessoas são como as peças desse puzzle. Vamos tentando encaixar ou até, depois de algumas tentativas, já sabemos o puzzle de cor porque aprendemos por tentativa e erro, ou porque há pessoas que aprendemos a conhecer como quem monta um puzzle.

Não sabemos, no início, onde pertence cada peça, mas vamos descobrindo devagar. Aprendemos o que uma pessoa quer, do que precisa, se acorda de mau humor de manhã, se precisa de silêncio ao final do dia, se anda a comer mais ou menos ou se precisa de um café, que ri quando está nervosa e liga quando precisa de desabafar. Aprendemos que gosta de ficar sozinha depois de um dia difícil ou que, quando alguma coisa corre mal, precisa de falar sobre isso até encontrar uma explicação.

Aprendemos quais são as peças que podemos encaixar, as que faltam e as que estão a mais.

São detalhes quase insignificantes, as peças de um puzzle, mas é assim que conhecemos alguém. Acreditem, é mais fácil fazer alguém chorar do que fazer rir, por isso devemos sempre tentar encaixar os opostos como a alegria e a tristeza. Só que nem tudo o que encaixa serve. Podemos gostar de uma coisa e não ser boa para nós, ou o contrário.

Com o tempo, começamos a reconhecer uma imagem sem precisarmos de olhar para a caixa do puzzle.

Sabemos quem está ao nosso lado ou pensamos saber até encontrar uma peça fora do lugar.

Novamente, um detalhe, uma mensagem sem resposta, um silêncio, uma desculpa, um «não me apetece» e um convite recusado.

A pessoa que adorava sair já não quer sair, a que falava durante horas responde apenas «sim» e «não» sem se importar com nada, a que dizia estar cansada agora parece cansada até depois de dormir. Pensamos que é só uma fase porque uma peça fora do lugar não chega para perceber que o puzzle mudou, mas, entretanto, aparece outra peça e depois outra e, quando reparamos, há tantas peças espalhadas pela mesa, mas não temos a imagem da caixa à nossa frente.

Não sabemos exatamente o que estamos a tentar reconstruir, nem se aquelas peças pertencem a uma fase difícil, a uma tristeza passageira, a uma ansiedade que começou a ocupar muito espaço ou ainda a qualquer outra coisa.

Erramos ao tentar montar o puzzle. Procuramos explicações e tentamos encontrar a peça que falta. Talvez aquilo de que a pessoa mais precisa seja simplesmente de alguém que se sente ao seu lado.

Ninguém precisa de esgotar as peças e nem sempre precisamos de ser nós a encontrar a solução.

Às vezes, amar alguém também é dizer: «Não sei como te ajudar, mas estou aqui e posso ajudar-te a encontrar quem saiba.» Podemos perguntar onde dói, oferecer companhia e abrir uma porta.

Pode ser acompanhar a pessoa a uma consulta, telefonar-lhe, falar com a família, ficar sentado(a) em silêncio ou não desistir à primeira resposta.

Porque há pessoas que dizem «não preciso de nada» quando, na verdade, ainda não aprenderam a pedir.

Nós não somos responsáveis por montar o puzzle inteiro de ninguém, mas podemos reparar quando as peças começam a cair.

Cada pessoa é um puzzle que nunca conheceremos por completo: há peças que só ela conhece, outras que ainda nem encontrou. Também há partes da imagem que só aparecem quando alguém se senta connosco à mesa.

Por isso, da próxima vez que alguém que amamos parecer diferente, talvez não precisemos de perguntar imediatamente «Qual é o problema?», mas sim «Qual foi a peça que mudou de lugar ou desapareceu?» e ficar o tempo suficiente para ouvir a resposta.

A vida é um puzzle incompleto, mas não precisa de ser um puzzle imperfeito.

About the Author: Jéssica Machado
Jéssica Machado
Apaixonada por histórias desde criança, principalmente pelas que nascem de coisas pequenas do quotidiano, começou por escrever poesia e contos e publicou o livro de poesia "O carrossel dos afectos" pela Chiado Books em 2017. Mestre em psicologia clínica e da saúde, foi entre a psicologia e a escrita que encontrou um espaço para falar sobre autoconhecimento e escrever sobre aquilo que tantas vezes fica por dizer: as relações que nos moldam, as memórias que carregamos e a forma como aprendemos a olhar para nós próprios(as).

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