por Jéssica Machado

«Se eu me for embora, vais continuar a gostar de mim?» A pergunta saiu-me de forma natural. Estava no trabalho e a minha colega falou numa saída para ver os Calema, em Maio. E a resposta foi: «O que é que isso tem a ver?! Não sejas tonta!»
Estou neste trabalho há menos de um mês e, de certa forma, salvou-me, deu-me propósito, afeto e pertença… Amo-o tanto quanto odeio. Caminho com passos delicados através de um limite emocional perigoso. Trabalhar com crianças com necessidades especiais deu-me vida. Saber que dou conforto a alguém, o abraço das crianças quando chego, conhecer e dar conforto a cada um, conhecer os gostos, as “manhas” e os medos, apesar do sofrimento… Há lutas que são só nossas, mas, se elas existem, ninguém merece passar por elas sozinha(o).
Aqui, tenho aquilo que procurei durante anos: acolhimento, valorização, amor, uma vizinha que me dá boleia todos os dias (e livros para ler nas pausas!), pequenos gestos, cuidado. Então, o que falta? Falta tudo.
Faltam recursos humanos e materiais. Os gritos que fazem eco na minha cabeça são os mesmos que me incentivam a perguntar: será que isto é para ti? Há tantas coisas que não quero ver quanto as que não quero sentir. Há quem me lembre que estou a trabalhar como monitora (e mal paga!) e que sou psicóloga, como se isso fosse o fim da linha, como se o meu percurso tivesse de obedecer a uma linha reta, como se o valor do que faço pudesse ser medido apenas pelo título que tenho ou pelo salário que recebo, mas não é assim tão simples.
Sou psicóloga. Sou monitora. Sou alguém que está a tentar descobrir o seu lugar, que encontrou sentido numa tarefa que talvez nunca tivesse imaginado para si e que, ao mesmo tempo, não quer deixar de reconhecer os próprios limites.
Não quero que a necessidade de provar que sou capaz me faça esquecer que também tenho limites.
E, quando as coisas estão difíceis demais, fecha-se a porta, porque a porta da unidade está sempre fechada. Uma porta fechada também pode ser um abrigo. O que se passa lá fica lá… e o que se passa dentro de mim onde é que fica? Uma porta que protege quem está, mas atrás da qual estão pessoas que precisam de ser ouvidas, janelas que precisam de ser abertas, nem que seja só para ver um bocado do mundo lá fora.
Passei tanto tempo à procura de um lugar onde pudesse ficar que quase me esqueci de perguntar se também podia descansar lá dentro, respirar…
Este sítio é casa, mas e se não for suficiente para me salvar?



