Ana Cristina Gomes

por Ana Cristina Gomes

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A Joana era, supostamente, uma adolescente normal. Era, porque já não é. Já não pode ler o que foi dito sobre ela. Já não pode saber que a sua tragédia pessoal pode ajudar a sinalizar outras situações semelhantes.

Aos 16 anos, a Joana estudava. Frequentava o 11.º ano e tinha o sonho de ser psicóloga. Porque no seu íntimo queria apoiar os outros que eram assolados por depressões, como a sua. Uma depressão disfarçada por uma aparente felicidade.

Fingia estar feliz. Tinha boas notas e um futuro brilhante pela frente. Só que a sua saúde mental dizia o contrário. O futuro era para a Joana um desconhecido tenebroso. Quantas vezes pensava que não queria viver esse futuro. Mas, como não partilhava as suas aflições, ninguém deu conta.

Os pais eram um casal unido e presente. Não havia disfuncionalidades na família nuclear. Não existia violência física, emocional ou psicológica. Não havia escassez de dinheiro. A Joana tinha o necessário para viver a adolescência de forma tranquila. Podia sair com os amigos, ir ao cinema e lanchar. Não havia alcoolismo ou droga em casa. Na família tudo era de uma normalidade que nada fazia antever a tragédia que viria.

Até que, um dia, a Joana desapareceu. Deixou as chaves em casa. O telemóvel ficou desligado na secretária. Nessa manhã, antes de ir para as aulas, abraçou os pais e disse-lhes o quanto os amava. Que eram os melhores pais que podia ter, que muitos amigos desejariam ter aquele pai e aquela mãe. E pediu-lhes desculpa por não ser a boa filha que eles mereciam. «Que disparate é esse, minha querida?», perguntaram os pais. «Não te preocupes com o 10 a Português. No próximo semestre, recuperas. As tuas notas são excelentes.» Pensaram que o drama da filha era por causa das notas, porque ela era demasiado exigente e perfecionista. Às vezes, até demais. Um comportamento a que poucos ligaram, mas que já era uma das respostas, senão a resposta principal.

Foram dias de desespero para aqueles pais que nada compreendiam. A sua menina tinha desaparecido sem deixar rasto. Tinham-lhe dado tudo o que podiam. Viviam em paz e sossego. Sem dramas financeiros ou familiares. Quantos jovens viviam em ambientes conflituosos ou em desequilíbrio e tinham uma saúde mental mais saudável e mais forte do que a Joana?

Os pais lembravam-se dos sintomas físicos da filha. De vez em quando, tonturas, mas vinham as desculpas de muito estudo. De vez em quando, dores no estômago. E vinham as desculpas da Joana de ter comido algo que lhe tinha feito mal. Como eram tão espaçadas, ou assim pensaram os pais, nunca acharam que fosse muito grave. Mesmo insistindo que ela fosse ao médico da próxima vez. Mas a próxima vez nunca chegou.

Os pais não viram tudo. Aligeiravam. Os professores não viram nada. Incentivavam as boas notas. Não estavam desatentos ou despreocupados, mas a Joana escondia-se.

A Joana escondeu a depressão de todos.

Porque a Joana sorria. A Joana era simpática e carinhosa com todos. A Joana não fingia os afetos.

A Joana só fingia que estava bem. enquanto a sua mente colapsava. Fingia tão bem que hoje é conhecida como a «rapariga que ninguém viu».

Três dias depois, o seu corpo apareceu nas margens do rio da cidade onde morava. Era um domingo de manhã. Um grupo de caminhantes viu-o ao longe e, como as buscas pela Joana ainda não tinham terminado, pressentiram o pior.

O pior confirmou-se. Eles não conheciam pessoalmente a Joana. Conheciam o seu rosto através das notícias do seu desaparecimento. A roupa era a mesma que os pais haviam descrito. As suas calças de ganga com dois rasgões na perna direita. A sweatshirt branca com as letras a dourado com a inscrição «Dream». A coincidência macabra. Uma miúda de 16 anos, que podia sonhar todas as aspirações, matou os seus unicórnios da esperança.

Viram um papel molhado a sair do bolso. Dizia apenas «Viver doía-me muito. Morrer era a solução mais rápida para encontrar a paz que perdi não sei quando, nem sei onde.»

A notícia da morte da Joana foi a abertura de todos os serviços noticiosos. O rosto estava estampado em todas as capas de jornais. As lamentações eram unânimes. Uma perda precoce. Uma vida sumida. Mais uma jovem que sentia que viver era mais angustiante do que a coragem tenebrosa de se suicidar.

A sociedade foi tocada pela dor silenciosa que, um dia, gritou e que ninguém ouviu.

A depressão é tão fatal como algo mortífero que atinge as suas vítimas. E qualquer um de nós pode ser a vítima desta doença que por aí prolifera.

A Joana é mais um rosto de como a depressão mata, como dilacera as vidas. De forma silenciosa e subtil, sem se fazer notar.

A depressão sempre existiu nos mais jovens. Não é novidade. Mas convém alertar vezes sem conta. Para que cada vez menos Joanas deixem este mundo antes do tempo de partirem.

A Joana é o rosto que nos faz pensar na pressão desta sociedade do ter. Ter boas notas, ter um curso superior, ser doutor ou engenheiro (menos que isso é pejorativo), ter um carro, ter a família perfeita, ter filhos, ter o corpo perfeito, ter boas roupas e ir a bons restaurantes. O ter exacerbado que mata de tanta pressão que nos incutem. Que não nos deixa simplesmente ser.

A Joana colocou a pressão nas notas escolares, ser a melhor. Mas não aguentou.

Podia ter sido outra coisa qualquer.

Foram as notas que a mataram. A exigência a que se submeteu. A pressão a que se sujeitou.

Tinha medo de que, se não fosse a melhor aluna, não viria a ser alguém. Que só iriam gostar dela se fosse a miúda dos 20. O salto até a saúde mental se deteriorar foi um ápice.

Ela nunca pediu ajuda. Teve vergonha.

Vergonha de a acharem fraca.

A dor aumentou. O sofrimento tornou-se atroz. As vozes na cabeça multiplicaram-se.

Pedir ajuda não é vergonha alguma. É ter uma enorme coragem de gritar «não estou bem». E não tem de estar sempre tudo bem, como a sociedade apregoa nas vidas perfeitas que não existem.

A Joana não foi a tempo.

Que a partida da Joana seja um grito de esperança para todas as Joanas que andam por aí. Que não tenham medo de pedir ajuda.

Que a Joana possa salvar as outras Joanas desta vida.

About the Author: Ana Cristina Gomes
Ana Cristina Gomes
Nascida em 1982, quando ainda não sabia ler nem escrever, já rabiscava tudo o que eram livros. Depois apaixonou-se pelas palavras, aliadas que a ajudaram a superar uma depressão e a conquistar o amor próprio (essa história dava mesmo um livro). Também se licenciou em Comunicação Social para estar perto dos conteúdos. Começou pela poesia, tendo um livro publicado “Esboço de um sonho” e várias participações em coletâneas. Depois veio a prosa. Tem inúmeros textos publicados na sua página de Instagram e espera um dia poder compilá-los num livro, a par do outro livro que fervilha no coração.

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