Nina da Silva

por Nina da Silva

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A expetativa não o havia deixado dormir por muito tempo, apesar da hora tardia a que se deitara. A casa estava silenciosa e a luz do dia ainda mal espreitava. Decidiu que não ia esperar que o resto da casa acordasse. Levantou-se. Calçou as suas pantufas e desceu as escadas de mansinho.

A casa tinha arrefecido durante a noite. Sabia que ia levar um ralhete se se constipasse, mas, para evitar isso, precisava de agasalho. Só que não queria voltar a subir. Se acordasse os irmãos, lá se ia o momento. Então, lembrou-se que o pai deixava os seus casacos no bengaleiro, junto à porta de entrada, e foi lá buscar um.

Foi uma figura pequenina completamente escondida por debaixo de um kispo que se viu atravessar a sala. O casaco arrastava pelo chão e, da criança, só se lhe viam os narizes vermelhos das suas pantufas. Eram as renas do Pai Natal — quer dizer, pelo menos, duas delas. Não tinha assim tantos pés.

Quando chegou junto à arvore de Natal, os presentes já lá estavam. Era tradição antiga da sua família deixar um sapatinho junto ao pinheirinho. Óbvio que os presentes não cabiam lá dentro, mas, pelo menos, sabia que as prendas que estavam ao pé do seu sapato eram as suas.

Sentou-se no chão e agarrou na primeira prenda. Rasgou o papel, com as suas mãos pequeninas, na ânsia de descobrir o que era. E, assim, de olhos brilhantes e sorriso no rosto, ele descobriu as suas prendas uma a uma. E primeiro que todos os outros lá de casa.

Quando os pais chegaram à sala, sob o pinheirinho iluminado de cor, havia uma criança adormecida embrulhada num casaco roubado. Que bela prenda lhes havia saído.

De certeza que não nos importávamos de ser crianças outra vez, só para voltar a ter aquela inocência. De contentarmo-nos com coisas tão simples como elas. Ou, melhor, contentar-se-iam, se nós, adultos, não tivéssemos complicado tanto a coisa. Para nós e para elas.

O problema de crescer é a inocência que se perde no caminho. A capacidade de sonhar e de acreditar no impossível. A expetativa e o brilho nos olhos não são desencadeados tão facilmente. Complicamos tudo. As prendas que realmente desejamos não se podem embrulhar nem comprar nas lojas. Mas fazem-nos acreditar que sim.

Que durante este Natal tenhamos isto em mente.

A todos, um Natal Feliz.

About the Author: Nina da Silva
Nina da Silva
Por pragmatismo, seguiu os números. Por paixão, teria seguido as palavras. Nascida nos primeiros anos da década de 80, traz consigo as dúvidas e os dilemas de quem se encontra a meio caminho. De onde? É o que ainda está por descobrir.