Sónia Brandão

por Sónia Brandão

Partilhar:

A Joana estava a viver aquilo que poderia ser considerado perfeito.

Estava no auge da vida.

Vivia a perfeição dos olhos que não querem ver.

Mas, na verdade, estava somente presa na vida de alguém que não era ela.

Tinha um emprego quase perfeito. Tinha um grupo de amigos que lhe proporcionava aquilo que, para muitos, era perfeito: jantares, gargalhadas, momentos. Tinha ao seu lado o que, para muitos, era o partido mais improvável de todos.

Estava numa vida quase perfeita, ou, como muitos diriam, onde nada lhe faltava.

Mas, se, no início deste capítulo da sua vida, ela tinha a sensação de que estava feliz, esse momento passou ao fim de pouco tempo.

E ela, como tantas outras, deixou-se ficar ali, tornando-se cada vez menos ela mesma.

O trabalho passou a ser, talvez, a única coisa estável e válida.

As relações de amizade, que até aí lhe pareciam verdadeiras e reais, começaram a transparecer outra verdade.

Passaram a ser ácidas, por vezes. Passaram a ser ocas, desconfortáveis, e ela deixou de poder dizer, fazer ou ser quem era até então.

A sua relação tornou-se vazia.

Vazia de tudo. Perderam-se os momentos de cumplicidade, os sorrisos espontâneos, os momentos bons, e apareceram as discussões pouco claras, o desinteresse, a futilidade, a não-relação.

E aquilo que poderia ser um simples momento baixo, na vida, tornou-se a realidade, dia após dia.

Por escolha. Por destino. Ou, somente, porque sim.

A Joana começou a ponderar se ainda queria esta realidade para si.

Durante algum tempo, o medo do futuro manteve-a ali, perdida entre mundos: o seu mundo real e o mundo que ela queria viver.

As escolhas que fez podem não ter sido as mais fáceis, mas ela decidiu partir.

Deixou para trás os amigos das fotos, o namorado amargurado com o mundo e partiu.

Partiu à procura de onde deveria estar.

Ajudou-se.

Colocou-se de novo em primeiro lugar, num caminho solitário, inicialmente.

Ficaram os amigos de verdade, aqueles que não pousam para tantas fotos, mas que estão sempre presentes.

A Joana teve de parar.

Refazer-se depois de ter vivido o que, para muitos, é somente a vida, mas que, para ela, foi uma espécie de teste sobre ela mesma.

Recomeçou a reconstruir — primeiro a si própria, porque sem ela o resto não iria chegar.

Reavivou relações que antes tinha deixado de lado.

Criou uma nova realidade para si, longe do passado.

E apareceram pessoas.

Apareceram pessoas para os lugares ainda vagos.

Aventurou-se pelo mundo desconhecido e saiu de lá cheia de conhecidos, de experiências, cheia de amor, cheia de vida.

Doeu.

No início, doeu mais do que o esperado.

Mas, hoje, olhando para trás, a Joana está feliz por ter ido, por ter partido para novos mundos, porque esses mundos deram-lhe a vida que se estava a esvair dentro de si.

Por mais difícil que possa parecer cortar situações, pessoas, aventurar-se no mundo, todos temos a liberdade para o fazer. É muito provável que tudo melhore depois, porque, no fim, somos nós que existimos no nosso mundo. Tudo o resto só acrescenta ou destrói, consoante o momento e a pessoa.

Hoje, a Joana olha para o passado e não reconhece quem foi, porque não era ela, somente uma cápsula vazia, presa entre opiniões e vontades dos outros.

A Joana aprendeu a amar-se novamente.

Reaprendeu a ser feliz com as pequenas coisas.

Reaprendeu a sorrir.

Reaprendeu a ser ela, longe do passado.

A dor do recomeço foi difícil de enfrentar, mas a paz do depois foi a melhor das emoções. A fragilidade do medo doeu, mas os passos, primeiro frágeis, tornaram-se fortes, seguros e precisos, com a certeza da direção que queria seguir.

A Joana tem um pouco de cada uma de nós. Em algum momento, tivemos de ignorar o medo para voltarmos a existir sem as bengalas que, durante muito tempo, fizeram parte do nosso caminho.

About the Author: Sónia Brandão
Sónia Brandão
Apaixonada por palavras, aprendeu, desde nova, a criar realidades paralelas na sua mente — onde tudo era possível. "Amor de Perdição" foi o primeiro livro que leu. Tinha 13 anos e foi a mãe que lho sugeriu para se ocupar. Desde então, nunca mais parou de ler. Durante alguns anos, no entanto, parou de escrever: sentiu que tinha deixado de fazer sentido. Mas o confinamento fê-la regressar à escrita com mais força e determinação. Este ano, surgiu a vontade de partilhar com os outros o que coloca no papel.

Deixa um comentário:

  1. Estefânia Barroso
    Estefânia Barroso 09 Fevereiro 2025 at 20:18

    Que haja muitas Joanas com a força de dizer “basta!”. Parabéns pelo texto, pela escrita. Gostei muito.

Comments are closed.

Também podes gostar de ler: