por Sónia Brandão

Existem momentos em que nos surpreendemos a nós próprios, em que nos deixamos guiar pelos instintos, em que desligamos a parte racional em nós e sentimos, sentimos tudo com todos os sentidos — tato, paladar, odor, audição, visão, mas, acima de tudo, sentimos.
Sentimos que somos desejadas, que somos nós. As prisões do correto desaparecem e deixamos o que somos aparecer, sem limites.
Depois de alguns momentos pouco meus, o inexplicável acontece. Começa o que muitos chamam de loucura e o que eu apelido de vida.
Existem encontros agendados no fado da vida. Nunca sabemos quais são até os vivermos. Quando acontecem, já não importa como terminam. Significam um sorriso eterno nas memórias de uma vida. Agradecemos com o passar dos anos por aquele instante, por aquele sorriso de verdadeira felicidade, porque o outro pode até nem ter percebido, mas para nós aquele momento mudou muito. Mudou toda uma visão de nós, que se vinha a instalar lentamente, mas que não correspondia, de todo, à verdade.
Nada é mais importante do que o encontro entre seres que se completam, só porque sim — só porque existe, desde o primeiro olá, uma ligação que poucos conseguem explicar, porque surge empatia, cumplicidade e a verdadeira liberdade para sermos quem somos, sem fingimentos, sem momentos de silêncio desconfortável.
Esse tipo de atração, que poucas vezes surge e que poucos deixam acontecer, veio ter comigo por acaso. Surgiu, no momento certo, com a pessoa ideal. Por vezes, esses encontros são tão intensos que precisamos de uma eternidade para os explicar, e muitos nunca encontraram uma explicação porque simplesmente existiram. Nada mais. Porque ambos precisávamos daquele encontro naquele momento, perdemos as barreiras e deixamos as emoções comandar, deixamos a vida acontecer, como se nada mais importasse, como se as nossas vidas não existissem para além daquele momento.
Fomos consumidos pela atração. Sem mais, somente atração. Vivi cada minuto. Sorri no fim, depois do “temos que repetir”, mesmo sabendo que era pouco provável que voltasse acontecer, porque a vida existe. A realidade não desaparece para que os nossos momentos aconteçam. Ela continua mesmo depois de eles se tornarem reais.
Cada um de nós seguiu a sua vida, cada um de nós seguiu o seu caminho, mas aquele encontro continua a fazer-me sorrir, continua a ser especial dentro da minha memória, só porque reencontrei parte de quem tinha perdido no caminho até aqui. E, sem essa parte tão valiosa, não seria quem sou hoje.
Os nossos instintos, quando escutados, levam-nos sempre ao novo patamar. Têm o dom de nos guiar, no meio da escuridão, da mesma maneira que nos mostram o caminho quando a luz é demasiado forte e nos cega.
Só temos que aprender a segui-los, e os sorrisos aparecem, só porque sim!