Sónia Brandão

por Sónia Brandão

Partilhar:

Estou perdida…

Perdida dentro de mim, dentro da minha mente, dentro das emoções que não me deixam ver aquilo que os meus olhos observam.

Até ontem achava que tinha tudo. Pensei que, dentro daquilo que é a vida, estava tudo no sítio certo, que nada poderia destruir o meu pequeno pedaço de paraíso, rodeado por tudo o resto.

Sentia que a minha jornada estava no caminho correto, aquele que eu esperei por toda a eternidade, e tinha a certeza de que nada podia abalar essa realidade. Mas, hoje, tudo mudou.

A vida tem sempre a última palavra, por muito que tenhamos a tentação de achar que estamos no controle de tudo.

Esta pessoa que faz parte de mim, mais do que parte da minha vida, chegou vinda do nada, no momento em que eu estava preparada para seguir em frente, para abandonar de vez o passado e seguir para novos momentos, novos começos.

Entrou como um furacão, prometendo tudo, colocando um sorriso permanente no meu rosto, até aí bastante sisudo. Devolveu-me a capacidade de sonhar, de voltar a querer tudo. Devolveu-me a vontade de construir realidades que, até aí, julgava perdidas. Mas, mais do que prometer, cumpriu…

Cumpriu tudo o que disse, e muito mais. Estava feliz. Mais do que feliz, estava em paz comigo e com as minhas escolhas atuais. Estava realizada, mas…

Mas, ontem, tudo mudou…

Aquilo que era perfeito foi destruído pelo passado de uma forma totalmente inesperada.

Os segredos. O passado volta sempre para nos assombrar, em algum momento, mesmo que achemos que isso é impossível. E voltou.

Um encontro aleatório. Um olhar para o passado, que ainda se encontra presente, levou tudo o que tínhamos a ser colocado na balança e às perguntas e mais perguntas que ninguém consegue responder.

Curiosamente, não foi o meu passado que regressou. Foi o dele. Os fantasmas que escondeu, com total perfeição, apareceram na versão da mulher que ele ama — da mulher que ele ainda ama…

Fui eu quem a trouxe até nós. Fui eu que a encontrei, mas nunca soube quem ela era. Para mim, era alguém que se tinha tornado minha amiga por circunstâncias da vida.

Durante meses, ouvi relatos da vida deles, do amor que ainda os une — mesmo não conseguindo manter essa relação no presente —, de uma forma tão real, que, por vezes, conseguia sentir a dor que ambos sentiam. Nunca pensei que esse era, na realidade, o meu presente.

Quando eles se olharam, eu senti que não pertencia ali. Senti tudo. Senti que eles ainda não tinham terminado, que eu era somente o presente dele, como uma tentativa de fuga do passado, e deixei de pensar.

A vida é feita de coincidências, mas mais do que isso: de momentos definidores, que nos fazem lidar com tudo o que, por vezes, fingimos não ver; que, por vezes, escondemos dentro de nós tão bem que até nos esquecemos de que foi real em algum momento.

Ambos me olharam. Ambos me pediram perdão por tudo aquilo que nunca tiveram o poder de controlar. Mas eu só saí, despedaçada, sem nada. Sem uma parte de mim. Não tive forças para mais.

Hoje, ouço a sua voz, mas não distingo nenhuma palavra, porque o vazio que me preenche destrói a realidade do que se encontra à minha frente.

Ele ama-a. Sempre vai amar. Ela ama-o. Sempre vai amar. E eu fui somente o instrumento para os voltar a juntar — aquilo que, um dia, me vai fazer sorrir, por ter sido tão determinante no destino de alguém que amei.

Dói, mas um dia vai deixar de doer. E só o bom irá fazer parte da minha memória.

About the Author: Sónia Brandão
Sónia Brandão
Apaixonada por palavras, aprendeu, desde nova, a criar realidades paralelas na sua mente — onde tudo era possível. "Amor de Perdição" foi o primeiro livro que leu. Tinha 13 anos e foi a mãe que lho sugeriu para se ocupar. Desde então, nunca mais parou de ler. Durante alguns anos, no entanto, parou de escrever: sentiu que tinha deixado de fazer sentido. Mas o confinamento fê-la regressar à escrita com mais força e determinação. Este ano, surgiu a vontade de partilhar com os outros o que coloca no papel.