por Ana Guilherme Martins

Uma das maiores descobertas da minha vida aconteceu durante a minha experiência académica no programa ERASMUS. Esta iniciativa permite-nos ir estudar para outra universidade, noutro país, durante um período de 4 a 6 meses. É uma espécie de janela cuja vista nos alarga os horizontes, de forma a expandir a nossa perspetiva de futuro profissional. Mas eu diria que é uma enorme janela pela visão de nós próprios que também nos traz, se assim o permitirmos. Não há dúvida de que a distância também pode ser aliada. A visão de fora ajuda-nos a olhar melhor para o que está por dentro. Foi precisamente o que me aconteceu.
Munida de uma mala de viagem nova, parti para Paris no fim de dezembro e, no segundo dia do ano de 1999, apanhei um comboio rumo ao sul de França. No quarto andar do pavilhão cinco, esperava-me, numa espécie de antecâmara, um lavabo do lado direito e, do lado esquerdo, um closet com duas prateleiras e um ferro para pendurar cabides, que eu teria de arranjar. Um metro mais à frente, do lado esquerdo, aguardava-me uma cama sem lençóis, encostada à parede e, do lado oposto, uma secretária com prateleiras num quarto de dez metros quadrados. A parede de frente era composta por enormes janelas para o jardim da residência.
Mas, mesmo quando algo nos parece comum, há sempre qualquer coisa que nos apega e nos mostra o quão especial se pode tornar. Nas pessoas, são pequenos gestos. Nas coisas, são pequenos pormenores. Neste quarto, o pormenor estava no teto. Na primeira noite, ao primeiro relance, vi algo desfocado a fluorescer. Quando limpei as lágrimas e foquei, reconheci as mesmas estrelas fluorescentes que tinha no meu quarto, em Lisboa. Coincidência? Não creio, de todo. Nesse instante, longe de tudo, mas sobretudo de mim, sem saber, começou a minha viagem. Não a do Erasmus, mas a minha viagem em mim. Ainda hoje continuo essa viagem, mas a 800 quilómetros da família mais próxima e a 1650 dos braços da minha mãe – como na canção do Pedro Abrunhosa. Aquele teto estrelado fez-me sentir sem chão pela primeira vez, apesar de, na verdade, sempre ter estado sem ele.
Ver as estrelas não me deu asas, mas, sim, vertigens, que me levaram a ligar à minha mãe com a desculpa de a tranquilizar com notícias minhas, diárias, numa experiência a solo que ninguém apoiara. Na primeira semana, gastei mais dinheiro em telefonemas para a minha mãe do que em comida. Isto sem somar o dinheiro que a minha mãe também gastou por me ligar para a única cabine telefónica, à hora que marcávamos. Não. À hora que eu marcava. A desculpa era sempre a mesma: ter de ligar à minha mãe para apaziguar o seu eventual pânico, repetia eu para mim própria. Acreditei nisto até há pouco tempo, mas o pânico era o meu.
A assiduidade da minha presença na cabine telefónica, no hall do rés do chão do prédio onde tinha o meu quarto de universitária, permitiu-me fazer a minha primeira amizade. Uma italiana que não falava nenhuma das línguas que eu conhecia: nem francês, nem inglês, nem português. Contudo, falámos na mesma. Para além da sua simpatia, prendeu-me a sua coragem em ir viver para um país onde não conhecia ninguém e não sabia nada da língua. E, mais tarde, ainda ganhou mais a minha estima quando descobri que embarcou na mesma, apesar da doença grave do pai.
Era impossível, para a pessoa que eu era na altura, não me comparar. Sempre me foi mais fácil reconhecer a beleza nos outros do que aceitá-la em mim mesma. Pelo simples facto de eu saber francês, já achava que, em vez de corajosa, estava a ser cobarde. Mas, na realidade, buscava tanto da vida como todos estes jovens que viveram a experiência do Erasmus antes de mim, comigo e os que se seguiram.
As comparações não costumam ser nada positivas, mas, em mim, tiveram o efeito contrário. Comparar-me também me obrigava a observar os outros mais atentamente. Para ser o mais justa comigo, precisava de os olhar objetivamente. E foram essas pessoas a minha janela de fora para dentro. Foram as comparações que fiz com essas pessoas que me ajudaram a perceber que eu não precisava de ter a família perfeita ou a vida mais equilibrada logo à partida para conseguir seguir caminho. Porque nenhuma delas reunia as circunstâncias perfeitas de vida. Apesar das imperfeições interiores e exteriores, eu também tinha valor.
O valor de cada um é como a coragem: não se mede pelas línguas que falamos ou pelo conhecimento profundo que temos, seja do que for, mas, sim, pelas barreiras que decidimos ultrapassar, apesar dos nossos medos, circunstâncias e possibilidades. Assim, a minha experiência fora de casa, seis meses com pessoas dos quatro cantos do mundo, ajudou-me a situar-me. Ajudou-me a aceitar que eu também tinha um espaço no mundo. Descobri, então, que não precisava mais de me esconder ou anular.
Desde então, posso ficar sem chão, mas nunca sem teto. Uma semana depois do meu regresso, com muito mais bagagem, decidi voltar a colar estrelas fluorescentes, mas, daquela vez, no teto do meu primeiro carro, pronta a seguir um novo rumo: o meu.