Albertina Silva

por Albertina Silva

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Esta história é sobre contar histórias. Sobre a contadora de histórias, aquela que as escreve.

Acontece que, para chegar a essa pessoa, primeiro vou apresentar o João, que não é escritor, nunca pensou ser e, no entanto, tem uma alma de artista que transcendeu o meu entendimento naquele momento em que o vi um pouco melhor.

Sim, sou uma mulher que escreve. Mas não fui para a cama com o João. Sim, vi-lhe a alma, mas não entrei na sua sexualidade, nem ele na minha. Sim, escrever é tesão e nem por isso merece tanta confusão.

Já lá chego.

O João, como tantas almas que andam por aí, carregava a alma ao peito como uma bandeira. Das mãos saíam-lhe trabalhos maravilhosos de artesanato, que ele criava quando precisava de meditar (palavra que ele não usava), quando sentia uma vontade que começa antes de chegar ao corpo e, depois, por muito que se lute, tem de se manifestar.

Não há heróis. Há consciência, ou não há consciência. Há os que encontram saídas, que abrem portas, que se desenvolvem e usam as ferramentas que têm ao alcance no momento e, principalmente, se rendem ao que lhes corre nas veias, aceitam a incompreensão, seguem e, caramba, é o artista.

O tal do artista.

Pois, para mim, todos nós somos artistas. A diferença é que uns têm a coragem de a manifestar e outros a reprimem e escondem por falta de compreensão de si mesmos.

Dançar. Pintar. Conduzir. Cuidar. Trabalhar com as mãos, seja em papel, em cortiça, em madeira, em ferro, em flor, em carne… Apresentar um trabalho e, todos os dias, ser uma inspiração. Um líder. Uma pessoa que se alcançou um pouquinho mais e se revelou.

Esses.

E agora a pergunta: quem não é um artista na sua vida…?

Ah, a boémia das artes. A rigidez de se manter são perante o julgamento. Estar na sociedade e não estar na sociedade. Ter um coração partido e chorar, chorar porque não é o coração partido que é diferente — é o choro.

Está aí a arte.

O choro, o grito, a risada e o coito de cada um são diferentes. Assim como a alma.

É aí que nasce a arte. Do desconforto de cada um e da necessidade quase vergonhosa de o expressar. Quantos o fazem, magnificamente, em silêncio?

Não o escritor!

Esse não se pode dar ao luxo de ser tão reservado, que a alma não deixa. Até o devora, acaso ele não se atreva a manifestar uma pérola que seja… Alguém a verá. Esse é o trabalho do artista.

Escrever é descobrir qual a linguagem selvagem que define a essência do escritor ou da escritora, lapidar-se com os mestres que se encaixam na sua visão — esses que, antes de nós, penaram no inferno da descoberta de si para além dos outros.

Escrever é ter a coragem de perder amigos e ganhar amigos, ganhar rótulos e perder rótulos. É, primeiro, permitir que chafurdem nas entranhas da escritora como se não fosse humana, para, depois, caso esse escritor nunca desista, receber o respeito e, quem sabe, a admiração.

Em vida ou na morte, no túmulo do seu interior.

É esta a dificuldade da arte de escrever. O penoso caminho do escritor ou da escritora: esperar que o amem e vejam para além da sua necessidade de obedecer ao seu espírito, para além da sua visível extensidade visceral, humana e espiritual.

Mas chega o dia em que já nem isso espera.

Liberta-se, qual animal enjaulado.

Um dia, de tanto esperar, amordaçado por ser visto, de sufocar, de gritar, de cuspir raiva, por ser o que não era, para ter o que não podia… o escritor não espera mais nada!

Escreve!

Escreve pela vida que agradece viver. Nem que sozinho, porque assusta o outro. Nem que julgado, porque incompreendido. Nem que em sangue, porque para escrever há que viver, sentir, experienciar.

É essa a diferença. E, por isso, se fala tanto da escrita e do aparente sofrimento que parece emergir de artistas com mais alma, mais profundos.

Porque quem escreve também quer pertencer. Ser visto como um amigo, um amante, sem ter de ser nada mais do que ele próprio.

É muito difícil amar, gostar, de verdade, de alguém assim já assumido. E muitos que escrevem escondem-se… Mas acredito que é possível.

Portanto, escrever, para mim, é um ato de coragem. É arriscar viver em essência. E quem sabe sentir que, mesmo assim, de manhã, ao acordar, pode estar despenteado, não saber falar nada de jeito porque tem sono, não precisar de saber um dicionário, nem ter todas as respostas. Sentir que o respeitam e o aceitam na sua imensidão trazida dos céus e dos infernos.

Pois ele aceita a do outro…

Só ele é que sabe…

Só ela é que sabe…

O João faleceu há uns meses. Era um artista, como quem dança, como quem canta, como quem pinta, como quem trabalha, como quem escreve, como quem transpira o invisível pelos poros.

Quem me dera ter tido coragem de me assumir anos mais cedo. Que escrevia. Que sentia. Que via muito, e disso era – e é – preciso partilhar. Mas tive medo e vergonha. Medo de ser chamada louca ou leviana. Vergonha por ter tanta alma e não saber o que fazer com ela, sem a saber encaixar na vida da sociedade, do amor, da amizade, do trabalho e da minha intensidade.

Um bem-haja aos que tiveram coragem e nos inspiraram. Aos que se embebedaram e se suicidaram. Aos que encontraram forma de permanecerem sãos dentro da sua insanidade artística. Aos que amaram perdidamente e se perderam nos fios da paixão, do amor, numa tentativa humana de, ainda assim, serem felizes.

Agora é a nossa vez!

Fiquem ao nosso lado.

Escrevemos para dar voz às vossas emoções, aos vossos lamentos e alegrias, aos vossos desejos mais secretos, às vossas fantasias mais reprimidas. Escrevemos para dar voz aos vossos anjos e demónios.

Fiquem ao nosso lado.

Sim, tu, que um dia me preferias calada, saibas que eras tu quem eu queria que me lesse melhor, me visse melhor, me permitisse ser um canal melhor para o despertar humano.

Escrever é um ato de coragem. Principalmente, ainda, se for uma mulher a fazê-lo.

Inteira.

About the Author: Albertina Silva
Albertina Silva
Escreveu o livro "Acorda". Participou em blogs de escrita criativa e foi vencedora do 16º Campeonato de Escrita Criativa realizado por Pedro Chagas Freitas. Declamou poesia e ouviu poesia. Ausente do mundo da escrita durante alguns anos, regressa para dar vida à sua paixão de infância, talvez, vida. Tem 45 anos e acredita que é preciso viver para conseguir escrever.