por Inês Biu Faro

Escrever é verbo, é sonhar, é viver! É vontade de sentir que não acaba mais. Escrever é rir e chorar, dar e receber, querer ficar e querer ir, querer guardar e querer partilhar. Escrever é Ser.
Já, por várias vezes, referi que ainda não conhecia o alfabeto e já enchia cadernos com a minha «escrita» ondulada e cheia de sonhos, que o meu pai me apresentou o computador e eu enchia os ecrãs de letras à minha vontade. E, ainda, que escrever, para mim, é terapêutico, libertador e é como oxigénio.
Não passo um dia sem escrever, sem anotar ideias, sem pensar «qual será o meu próximo texto?». Antes de ser desafiada por alguém, desafio-me a mim mesma. Quando as dores na mão direita se instalam, troco para o formato digital e só páro quando já todas as palavras foram escritas, lidas e relidas.
Um dos meus sonhos musicais era ser pianista. O que é que eu sou agora? Pianista dos meus teclados, com banda sonora ou apenas o som dos meus dedos nas teclas. O crescimento dos textos é audível. Chego a ter momentos em que só sei o que escrevi quando vou reler, como se a silenciosa comunicação entre cérebro e dedos, mente e piano acontecesse sem que os olhos vissem, a não ser no final — lá está, quando corrijo os erros e verifico se disse tudo o que queria dizer.
Escrever já não me é só um ato de «pianar», é, sobretudo – como dizia uma querida colega de escrita – um ato de coragem. Da minha coragem para partilhar o que há de mais íntimo em mim, o que penso, o que sinto, o que muitas vezes nem eu sei que tenho em mim até ao momento em que olho para a folha que outrora estava em branco e passou a ficar cheia.
Sempre escrevi melhor do que falei. Sempre abordei melhor alegrias e tristezas pela escrita e só depois pelo coração. Nunca tive a coragem de partilhar sem vergonhas – ainda que já tivesse páginas nas redes sociais. Havia sempre a busca dos seguidores, dos «likes», da aprovação externa. Só que, há uns meses, tudo isso mudou, quando dei um salto de fé gigante! Só eu é que preciso de gostar e aprovar a minha escrita. Só eu é que dou este passo corajoso de publicar e mostrar o meu íntimo, os meus sentimentos e pensamentos, as minhas palavras. E, com o salto de fé em começar a escrever para esta plataforma – a emootiva –, voltou a coragem para atualizar as minhas páginas nas redes sociais, desde mudar-lhes o nome a escrever em nome próprio, deixar de me esconder atrás de um pseudónimo e valorizar ainda mais tudo o que escrevo com o meu coração.
Sim, dou o peito ao público e, nem por isso, deixo de me proteger. O objetivo mudou. Já não é a busca pela aprovação, mas, sim, dar a mão e confortar outros corações, chegar-lhes de uma maneira que não esperam, com um abraço tão necessário de dar como de receber. Um pouco também daquilo que espero quando leio outros autores, procuro o conforto de saber que há mais pessoas que passaram pelas mesmas situações que eu, ou semelhantes. Mesmo que seja ficção, gosto de mergulhar nas histórias que leio e fazer parte, assim como gosto de escrever de maneira a que mergulhem no meu oceano de pensamentos e sintam que me conhecem, mesmo que nunca me tenham visto na vida.
Escrever pode ser, também, um ato de rebeldia, quando, durante tantos anos, tantas mulheres tiveram de se esconder atrás de pseudónimos para se protegerem e, hoje em dia, ainda haja muitas que o façam, pela popularidade. Em séculos que já lá vão, para quem não tinha voz, a escrita era a única maneira de comunicar, de demonstrar vontades, até mesmo de contar segredos ou partilhar ideais políticos e de revolta. Era pela escrita que muita gente tinha coragem de ser rebelde, de se sentir viva. Assim como eu, que, não sendo rebelde, escrevo o que quero e me apetece, desafio-me a ser mais e melhor escritora, sempre com a intenção de prender o meu público, sem nunca perder o meu coração por entre as linhas de pensamento.
Entre terapia, oxigénio, ritmo, lágrimas e gargalhadas, escrever é-me também necessário para me organizar. Organizar a mente e o coração, arrumar o «sótão» e a «plateia», como lhes chamo. Vivo muito os contos de fadas e, na grande maioria das vezes, é pela escrita que consigo descer à terra. É ao ler-me e reler-me que amadureço, que revisito memórias, aprendendo com elas, percebendo o que já não faz sentido ter na minha vida e o que ainda quero para mim.
É também a escrita, a par com a leitura, que mais me tem ensinado que a vida não é tão dura quanto parece, que há uma infinitude de mundos por descobrir, imaginações que voam e até mesmo a crueza de mundos que já lá vão.
Entre a ficção e a realidade, a escrita mostra-me, todos os dias, os pesos que liberto sempre que me sento ao computador e deixo sair tudo. Desde a data até ao ponto final.