Nina da Silva

por Nina da Silva

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Cresci numa família cujas condições económicas não eram as ideais, mas as suficientes. Segundo a minha mãe, pertencíamos à classe dos remediados. E ela lá sabia o que dizia, porque as suas origens tinham sido bem mais humildes.

O Natal da minha infância nunca foi preenchido de coisas, mas foi preenchido de muito boas memórias. Infelizmente, já não me lembro de alguns detalhes, mas lembro-me do essencial.

Pinheiros artificiais era coisa que nem sei se existia na altura. Quando não se conseguia arranjar um pinheiro natural, serviam uns ramos de outra árvore qualquer que houvesse por perto. Lembro-me perfeitamente de uma árvore de Natal feita de galhos de nespereira, com as suas folhas pintadas de neve artificial. Era uma árvore bem menos frondosa e cheirosa do que o pinheiro, mas fazia bem o seu papel. E que saudades tenho eu do cheiro a pinheiro.

Não tínhamos lareira, mas tínhamos forno a lenha e era aí, junto ao mesmo, que deixávamos o sapatinho na noite de Natal para que o menino Jesus nos deixasse as prendas. Qual Pai Natal, qual quê! As prendas nunca foram muitas, porque a maior parte dos tios eram emigrados e os poucos que cá estavam normalmente davam dinheiro em vez de coisas, incluindo os avós — não que me chateasse muito com isso.

Nas semanas anteriores havia a preparação das broas de Natal, para comer e oferecer. Com quatro filhos, a minha mãe tinha quase uma fábrica montada em casa. Não só fazíamos como despachávamos vários quilos delas. E pensar que nessa altura comia massa crua fosse do que fosse, das broas, dos bolos e mesmo do pão, e não passava mal.

O almoço do dia 25 era uma espécie de ensopado de carnes, normalmente de vaca e de porco, com batata, batata doce, cenoura e uma combinação de temperos aprimorada pela dona da casa ao longo dos anos, cozinhado lentamente no forno a lenha, previamente aquecido, durante a noite de 24 para 25. O bom deste prato era que, no dia seguinte, pouco era preciso cozinhar. Apenas fazíamos o arroz cozinhado no molho da carne. E que bom que era.

Aquilo que me deixou mais saudades foi o pão amassado em casa e cozido no forno a lenha. Apesar de não ser apenas no Natal, nesta altura do ano era garantido. Normalmente, um a dois dias antes, juntavam-se a minha avó paterna e a minha mãe para amassar o pão. Eram uns bons quilos de farinha para amassar à força de braços. Ai, o cheirinho do pão pela casa fora, que bom! E pãozinho quentinho com manteiga? E os bolinhos fritos com o resto da massa do pão?! A avó já partiu há muitos anos, a geração seguinte já não tem força e a minha não se quer meter nisso.

Natal era sinónimo de circo, parque de diversões e passeios à cidade para ver as luzes de Natal, desenhos intricados com lâmpadas grandes e coloridas, ainda bem antes das Leds tomarem contas das iluminações. Natal era ir de casa em casa com a desculpa de ver os presépios e as árvores, mas com o real intuito de provar os licores e as doces iguarias feitas por cada anfitrião.

Hoje, temos muito mais coisas, mas as memórias que se criam são poucas. Há uma rotina, um guião a seguir. Apesar das dificuldades de muitos, temos também outros tantos que não valorizam o que têm. Já não me lembro das prendas que recebi, mas tenho na memória os momentos marcantes que vivi.

About the Author: Nina da Silva
Nina da Silva
Por pragmatismo, seguiu os números. Por paixão, teria seguido as palavras. Nascida nos primeiros anos da década de 80, traz consigo as dúvidas e os dilemas de quem se encontra a meio caminho. De onde? É o que ainda está por descobrir.