por Inês Biu Faro

Quando caminho na rua, é comum ir a olhar para as montras. Mas, se perguntarem o que está para lá das vitrinas, nem sequer sei dizer.
Quando caminho na rua e olho para as montras, tudo o que vejo sou eu. As minhas formas, a minha roupa, as minhas malas e adereços, até a forma como ando, como bailam as minhas pernas em cima dos saltos ou na correria dos ténis.
Quando caminho na rua e olho para as montras, amo-me um pouco mais, porque olho para mim. São espelhos fora das quatro paredes do quarto, reflexos do que realmente sou e não do que penso ser, refugiada no meu espelho do quarto.
Quando caminho na rua e olho para as montras, ora ensonada, ora apressada, ora até distraída a pensar noutras coisas, acabo sempre por reparar! Reparo nas linhas do batom ou da maquilhagem por fazer. Reparo no cabelo apanhado ou que voa ao sabor do vento, nas curvas dentro das calças e nos decotes dos vestidos.
Quando caminho na rua e olho para as montras, reparo na mulher que caminha comigo. A Inês olha para a Inês e reparo em mim. Nos meus detalhes mais simples e bonitos, reparo em mim. Sem fantasias. Sem a magia dos espelhos de casa. Vejo os reflexos do que é e não do que eu queria que fosse.
Quando caminho na rua e olho para as montras, sou eu. Só eu.