Sónia Brandão

por Sónia Brandão

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O que te faz voltar?

O que te faz regressar aonde disseste nunca mais voltar?

O que te faz dar quilómetros para trás, acreditando que estás a avançar?

O que te faz ficar?

O ser humano tem algo de curioso: por mais que, durante dias, meses — por vezes, anos —, diga que nunca mais vai voltar a tal sítio, a tal situação, volta.

Volta como se nunca tivesse saído.

Volta mesmo ainda tendo memória do quanto foi negativa a sua presença.

Porquê?

Porque precisamos de aprovação.

Precisamos que aqueles que, um dia, foram chamados de nossos nos digam que estamos no caminho certo.

Precisamos que aqueles que, durante anos, nunca aprovaram as nossas escolhas nos digam que, agora, as percebem.

Aprovação de quem não devia contar.

Aquele caso clássico da relação que acabou porque era péssima, porque o beijo não tinha química, o sexo não funcionava, a conversa não fluía, os objetivos não eram os mesmos, mas ainda pode funcionar.

Não pode.

Só funcionaria se entrássemos numa realidade alternativa onde a vida se molda aos nossos desejos, e apaga tudo do outro, transformando-o na perfeição da nossa mente.

Outro clássico: sabemos que alguém nunca foi amigo.

Ou, pelo menos, não amigo de verdade, daqueles que dão dois gritos para voltarmos à realidade sempre e quando estamos longe de a conseguir ver.

Aquele amigo que nos ampara nas quedas para não magoarmos os joelhos.

Aquele amigo que nos faz abrir um sorriso no meio das lágrimas.

Aquele amigo que está lá.

Mas nós tentamos manter essa amizade, mesmo que seja baseada no julgamento constante, na crítica destrutiva, porque um dia essa amizade vai ser de verdade.

Não vai.

Estes clássicos de erros de julgamento acontecem porque queremos a aprovação e a validação de todos, o que nunca acontece.

O famoso amor-próprio, aquele que todos devíamos ter presente, por vezes perde-se nos sorrisos sorrateiros da vida, mas ele está lá.

Só temos de o reencontrar.

Para podermos perceber que muito raramente voltar atrás retira a força às palavras ditas, às atitudes tomadas, aos julgamentos feitos.

Reconhecer um erro é humano.

Perder-se de si para procurar a aprovação e validação de outros é somente a persistência no erro.

Por vezes, só temos de olhar para a frente.

Esquecer onde estivemos, viver onde estamos e caminhar para onde queremos estar.

Com a leveza de quem vive sem perseguir fantasmas do passado.

About the Author: Sónia Brandão
Sónia Brandão
Apaixonada por palavras, aprendeu, desde nova, a criar realidades paralelas na sua mente — onde tudo era possível. "Amor de Perdição" foi o primeiro livro que leu. Tinha 13 anos e foi a mãe que lho sugeriu para se ocupar. Desde então, nunca mais parou de ler. Durante alguns anos, no entanto, parou de escrever: sentiu que tinha deixado de fazer sentido. Mas o confinamento fê-la regressar à escrita com mais força e determinação. Este ano, surgiu a vontade de partilhar com os outros o que coloca no papel.