Sónia Brandão

por Sónia Brandão

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Sabes o que mais me doeu? Olhar-te e não te ver. Estar contigo e, durante aquele tempo, não ouvir o que dizias. Culpo-me por não estar lá, de verdade.

Durante anos, foste a alma da festa, foste a pessoa que sorria e iluminava a sala. Eras o sol que chegava e que todos esperavam encontrar. Atraías até ti todos porque eras especial, sem pretensões, somente porque eras tu. Eras a que ia na onda, a que sempre estava pronta para alinhar nas maiores loucuras sem olhar para trás.

Porque amavas a vida. Porque te amavas.

Esse sorriso foi a tua arma contra o mundo durante toda a tua vida. Aprendeste a esconder-te atrás de um sorriso, quer concordasses, quer não o fizesses, sorrias somente e ias. Acho que todos sabiam como eras. Eras tu.

Mas, com o passar do tempo, com a saga da vida, mudaste.

Continuavas a sorrir, mas esse sorriso deixou de chegar aos teus olhos. Olhando para trás, acho que começaste a perder o brilho e, para nós, que não queríamos ver, continuavas igual, mas estavas diferente, muito diferente. Deixaste de estar. Apesar de estares presente e de teres o mesmo sorriso, deixaste de estar. Deixaste de falar, de participar. Deixaste de partilhar, com medo do julgamento.

Deixaste…

Hoje sei quando aconteceu. Aconteceu quando todos começámos a questionar-te, quando todos te começámos a julgar, mesmo sem o fazermos abertamente. Começou com o teu medo pelo julgamento e com o nosso embarque nele. Deixaste de sentir que aquele espaço era seguro e desapareceste. Deixaste de estar.

Durante algum tempo, nem o teu sorriso falso chegou. Afundaste-te dentro de ti. E, nesse momento, ninguém te acompanhou, nenhum de nós percebeu, porque estávamos demasiado preocupados com os nossos pequenos grandes problemas, demasiado preocupados com o julgamento a ti, mesmo sem sabermos o que se passava.

Tu lutaste. Tu procuraste ajuda em todos os sítios que ta poderiam proporcionar. Passaste pelo inferno dentro de ti. Foste e voltaste diversas vezes, ao longo destes anos.

Mas agora…

Agora estás mais tu, menos sorridente, mas, quando o fazes, continuas a iluminar a sala. Continuas a ser tu, mas diferente. Voltaste a sorrir com o olhar. Não todos os dias, mas muito mais. Voltaste a amar a vida com a calma que a idade traz. Voltaste a amar-te, mesmo reconhecendo que não és perfeita.

Continuas o caminho.

A mim, resta-me continuar por aqui. A olhar-te e perceber que estás aqui. A ouvir-te de verdade.

E não julgar. O mais importante, não julgar.

About the Author: Sónia Brandão
Sónia Brandão
Apaixonada por palavras, aprendeu, desde nova, a criar realidades paralelas na sua mente — onde tudo era possível. "Amor de Perdição" foi o primeiro livro que leu. Tinha 13 anos e foi a mãe que lho sugeriu para se ocupar. Desde então, nunca mais parou de ler. Durante alguns anos, no entanto, parou de escrever: sentiu que tinha deixado de fazer sentido. Mas o confinamento fê-la regressar à escrita com mais força e determinação. Este ano, surgiu a vontade de partilhar com os outros o que coloca no papel.

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