por Sónia Brandão

Deixo-me ficar sentada, com o olhar perdido no nada.
Mantenho as mãos presas ao volante, mesmo depois de desligar o motor.
Olho para o nada.
Não tenho ainda total perceção da nova realidade, da minha nova realidade.
Em poucas semanas, perdi a certeza sobre o presente e o futuro.
Deixei de fazer parte de um nós para me transformar numa miragem ténue e pálida de mim.
Como cheguei aqui?
Num piscar de olhos, tudo mudou.
Acreditei que as minhas escolhas iriam permanecer comigo até ao fim dos meus dias.
Acreditei, ainda que com algumas dúvidas, que seria feliz com o passar dos anos.
Quinze anos após sair deste mesmo lugar, regresso.
Regresso com a amargura.
Regresso com o sabor do fracasso.
Regresso, ainda, a tentar perceber como fiz o caminho de regresso.
Para muitos pode parecer normal.
Depois de mais de quinze anos, um dia, sentamo-nos frente a frente na nossa sala de estar e descobrimos que nunca estaríamos na mesma página, na mesma latitude de vida.
Eu queria um filho, queria alguém a quem amar incondicionalmente. Ele recusava-se a ser pai.
Ele queria voltar a vibrar com a vida, sair, viajar, viver aventuras.
Eu queria criar um lar, mais do que uma casa.
E, no meio dessa conversa — agora tão irreal —, decidimos divorciar-nos.
Sem perceber como, em poucos dias, separámos tudo o que demorámos quinze anos a construir.
A casa, os móveis, o dinheiro, as memórias.
Nada restou.
Parecia que ambos já tínhamos decidido muito antes de o verbalizarmos.
Durante todo esse processo, nunca levantámos a voz um para o outro.
Tudo na paz.
Ao fim de três semanas, terminámos uma vida em comum de quinze anos, sem que nada restasse.
Parece que não vivi. Tenho a verdadeira sensação de que estive num sonho tornado pesadelo — pouco parece real.
Talvez aceitasse melhor o fracasso se eu reagisse a ele.
Se lutasse contra.
Mas não.
Limitei-me a acenar com a cabeça e a concordar com tudo, mesmo sabendo que, a longo prazo, a minha mente e o meu corpo iriam pagar a fatura do meu desprendimento.
Mas se fosse somente eu…
Ainda poderia levantar a cabeça e seguir orgulhosa das minhas escolhas.
Mas assim?
Assim continuo perdida entre a amargura e o fracasso do desperdício dos anos que passaram.
Entre o abandono do sonho e a perda da realidade solitária.
Voltei aqui, ao mesmo sítio de onde saí quinze anos atrás, em busca do sonho.
Volto onde ainda me sinto eu.
Volto onde ainda espero conseguir reerguer-me e recomeçar.
Onde espero encontrar uma nova folha em branco e uma caneta para a colorir de forma diferente.
Levanto os olhos e ela olha-me com um sorriso no rosto.
Aquela que me viu sair recebe-me como se tudo tivesse acontecido hoje de manhã.
Volto à casa da minha mãe.
No momento mais baixo da minha vida até aqui, no momento do meu maior fracasso, regresso aos braços que sempre me acolheram.
E, nesses braços, procuro a cura e a coragem para recomeçar.




