por Inês Biu Faro

O Outono lembra-me sempre uma partida.
Assim como as folhas caem das árvores e toda a natureza larga algo de si para se renovar, assim como quando sentimos que o ano está a começar novamente, também para mim aconteceu algo de novo, em duas alturas diferentes da minha vida.
Há 20 anos saí de Milão, a cidade que me viu nascer e onde vivi com os meus pais e a família da minha mãe até aos dez anos.
E, há um ano, quando conheci o Bruno.
Se a segunda me deixou inesperadamente feliz e tem sido o melhor ano da minha vida, a primeira… bem, a primeira foi a maior dor que senti enquanto criança.
Habituei-me a passar o tempo com os meus primos, na escola e, depois, ao final do dia, em casa da nossa Nonna.
Tinha os melhores almoços e lanches, os melhores abraços da minha vida, e o Nonno era o melhor professor emprestado. Adorava fazer os trabalhos de casa com ele e ficar a saber mais do que aquilo que aprendia na escola.
Não me lembro bem do que aconteceu. Sei que a Mamma conversou comigo sobre a nossa mudança aqui para Roma — o Babbino tinha um trabalho novo e tínhamos de vir com ele.
Lembro-me de que chorei muito. Não queria perder os meus amigos, os meus primos e os Avós.
Não queria que a minha vida mudasse, mas mudou.
Os Outonos vindouros deixaram de ter o cheiro a canela pelo ar. As folhas, debaixo dos meus pés, já não estalavam da mesma maneira e eu não tinha os lanches e o colo dos Avós.
Para mim, o Outono passou a ser a estação das saudades, de querer apanhar o primeiro comboio para Milão e ficar com a minha família até ao Natal.
Até que, finalmente, me habituei às mudanças e à nova maneira de viver a vida.
Fiz novos amigos. Escolhi uma carreira profissional. Fui tendo os meus amores e desamores.
Ainda assim, só quando cheguei à faculdade é que consegui sentir-me em casa na «minha» Roma.
Deixei de sentir um frio interior e passei a aproveitar melhor cada gole de chocolate quente. Pedi as receitas de bolachas à Nonna e tentei fazê-las inúmeras vezes, sem sucesso.
As bolachas outonais de maçã e canela só começaram a ficar iguais – ou quase iguais – às da Nonna há um ano.
Foi quando descobri o tal ingrediente secreto que nos vem do coração: o Amor.
Quando conheci o Bruno, andei pé ante pé, até me deixar envolver inteiramente e sentir o meu Amor de Sonho no peito, no dia a dia, na vida!
E, quando esta «ficha caiu», decidi presenteá-lo com estas maravilhosas e saborosas bolachas de amor.
Enquanto as fazia, deixei-me levar por todas as emoções que as lembranças me trouxeram.
Regressei a Milão sem ter saído da minha cozinha.
E só voltei à Terra quando as gatinhas começaram a fazer disparates à minha volta, para logo de seguida voltar ao meu Baú de Memórias.
Mal abri o forno, o perfume invadiu a casa, o calor aqueceu-me inteira e quis comer todas naquele momento.
Em vez de as comer de uma assentada, recebi a mensagem mais amorosa de sempre: «Espera por mim. Levo chocolate quente para partilharmos e quero ouvir-te falar sobre a tua família. Levas-me a Milão?».
O Bruno sabe sempre como aquecer o meu coração e teve toda a paciência e curiosidade para ouvir todas as minhas histórias de infância.
Ainda não voltei a fazer as bolachas, mas vou voltar a comer as originais — vou visitar a minha família e o Bruno vai comigo.
É o segundo Outono que passamos juntos e já só espero e desejo que tenhamos Outonos destes a nossa vida inteira — em Roma, em Milão, onde quer que seja.
O Outono voltou a ser cheio de cores quentes e cheiros doces.
O Outono voltou a ser, para mim, a estação mais bonita e quente.
E tudo por causa de bolachas, de memórias e do amor.




