por Estefânia Barroso

«Ai, credo! Toda vestida de preto!! Não me digas… morreu-te o gato?» Esta era uma frase que se ouvia, não raras vezes, nos idos anos 80 e, eventualmente, anos 90. Eu, pelo menos, lembro-me de a ouvir várias vezes, fosse porque estava toda vestida de preto (algo raro, mas que acontecia, por vezes, na minha adolescência), fosse porque vinha com uma cara pouco simpática e feliz. Relembro esta frase idiota porque, de facto, demonstrava o pouco apreço que se demonstrava, na época, pelos animais de companhia. Essa frase algo palerma era dita em tom irónico, como se fosse totalmente inconcebível estar triste SÓ porque nos tinha morrido um gato, um companheiro com quem partilhávamos a vida.
Felizmente, um largo caminho foi percorrido nos últimos anos sobre esta questão. Para começar, a frase parva com que iniciei esta crónica já pouco é ouvida. Foi relegada para um passado que só as pessoas como eu, que têm tendência a recordar coisas pequenas e desinteressantes, se conseguem lembrar. Hoje em dia, sente-se que grande parte das pessoas percebe que é duro perder um companheiro que partilhou a casa connosco durante alguns anos. A grande maioria das pessoas entende que perder um animal de estimação nos causa uma dor tão forte como a perda de um ser humano pertencente à nossa família. A grande maioria entende que, no dia da perda, nos sintamos tristes e que choremos a partida do nosso animal. Muitos serão aqueles que nos farão chegar uma mensagem de conforto, que nos lembrarão que todos temos a nossa hora de partir e que o nosso animal foi um bicho feliz durante todo o tempo da sua vida. Muitos serão aqueles que nos dirão que percebem a nossa dor, a nossa tristeza.
Contudo… já não serão tantos assim aqueles que entendem que a morte de um animal de estimação pressupõe um período de luto e que esse período não é fácil de ultrapassar. A sensação que tenho é que temos direito a estar tristes, mas com horas e dias contados. Dois dias são suficientes para chorar e superar uma perda. Aconteceu-me ainda agora com a perda da velhinha Carlota. Dois dias depois já era questionada com perguntas como «já fizeste o luto da tua gata?» e conclusões do género «ela era velhinha. Já estavas à espera… Não custa tanto».
Pois vou dizer-vos. Não, ainda não fiz o luto pela perda da Carlota e, sim, custou-me muito. E digo-vos mais: se há um dia em que a dor parece mais suave, outros há em que ela volta com toda a sua força. Seja porque alguém me fala dela, seja, sobretudo, porque sinto que se está a apagar, devagar, a sua presença na minha casa. Reparei que já não existem pelos brancos espalhados pelo corredor. Por mais que aspirasse, havia sempre pelinho espalhado pela casa. Agora, já não. Porque já não fazia sentido ter a cama da gata ali, lavei-a e arrumei-a. Agora, já só existe o espaço onde estava a cama, vazio. Já não fazia sentido ter duas caixas de areia… Mais um espaço vazio. A poltrona, contudo, mantém-se. Ainda ninguém teve coragem de retirar a poltrona da Carlota. É verdade. Temos na sala uma poltrona velha, que só estava lá porque foi sempre a escolhida pela Carlota. É inútil, uma vez que está num local onde nem nos podemos sentar nela. Mas continua lá, como uma marca derradeira da presença da nossa velhinha Carlota. Sei que, um dia, teremos força para a tirar dali. Contudo, esse dia ainda não chegou.
Esse dia não chegou porque ainda estamos todos, cá em casa, a assimilar a sua ausência. Ainda me levanto, de manhã, pensando que a primeira coisa que tenho para fazer é dar a medicação e o patê à Carlota. E, quando ponho os pés ao chão e sinto aquele silêncio, percebo, finalmente, que já não é necessário. Ainda estico o ouvido, de um momento para o outro, pensando ter ouvido o miar tão característico da minha velhinha. A minha irmã sempre dizia que ela não miava. Ela resmungava!
Tantas palavras para vos dizer, sem qualquer pudor: o luto por um animal de estimação é um luto verdadeiro. Não é menor, mais fácil de superar ou menos digno do que o luto por um ser humano. Por isso, não deve ser medido em dias, semanas ou meses. Perdemos algo que amávamos. De um momento para o outro, perdemos rotinas, hábitos, companheirismo. De um momento para o outro, ficámos com uma ausência onde antes havia presença, por mais discreta que ela pudesse ser (como já era a da Carlota).
Fazer o luto por um animal de estimação não é um capricho. É um processo natural de quem amou e foi amado. Cada um levará o seu tempo, até porque não há um tempo certo para deixar de sentir a saudade triste, que dilacera, e passar a sentir uma saudade doce, ilustrada de boas memórias. Há que aprender a viver com aquela ausência e só o coração de cada um saberá como e quando fazê-lo.
Se me perguntarem quando é que farei o luto pela Carlota, poderei dizer-vos: quando o meu coração quiser. Não é hoje. Isso é certo. E talvez nunca o faça completamente. Isto porque quem amamos, mesmo que sejam sacos de pelo de quatro patas, deixa-nos sempre um pouco de si connosco – um miado no silêncio da casa (real ou imaginado?), um reflexo numa janela, uma recordação que chega quando menos se espera. A Carlota continua aqui, sempre que a deixamos surgir nas nossas conversas e nas nossas recordações. Talvez seja esse o verdadeiro sentido do luto: não esquecer e aprender a viver com a presença que permanece, mesmo depois da ausência.




