por Sofia Reis Cardoso

Foi no final do ano de 2024 que tomei a bonita decisão de me inscrever na emootiva. Foi, exatamente, por estar a cuidar da minha saúde mental, que fui aconselhada pela minha psicóloga, sendo que eu própria tinha noção dessa necessidade, para praticar atividades sozinha, que fossem prazerosas. Não era difícil eleger: escrever, ler e dançar foram as primeiras ideias a surgir.
Quando procurava por um grupo de escrita, um clube de leitura, algo que pudesse fazer online ou até presencialmente, eis que surge na minha pesquisa a emootiva, como sendo a resposta àquilo que eu necessitava: uma plataforma de mulheres, de incentivo à escrita, em que o nome, desde logo, convidava a escrever com as emoções sempre presentes, característica comum a tudo o que eu escrevo. A cereja no topo do bolo surge quando me apercebo de que é uma plataforma que tem como um dos seus objetivos a consciencialização para a importância da saúde mental. Eis que, e brincando um bocadinho com o título deste desafio, as peças do puzzle juntaram-se todas e encontrei a plataforma à minha medida.
No meu caso, a escrita é terapêutica, onde eu me dispo de preconceitos, de procura por validação, abandono medos e escrevo tudo aquilo que me vai na alma, naquele momento, e sobre aquele tema. Confidencio-vos que, quando estou muito ansiosa, é na «escrita à mão» que encontro o meu maior refúgio e onde liberto — muitas vezes, acompanhada de lágrimas — tudo o que estou a sentir e esvazio a mente e o coração.
Para mim, a escrita tem esta capacidade: é um recurso, um medicamento, um calmante para cuidar da minha saúde mental, para pensar primeiro em mim, naquilo que gosto de fazer, no prazer que a escrita me dá. Mas cada pessoa pode encontrar, dentro de si, algo que lhe dê prazer pôr em prática e que ajude a sair de uma situação de isolamento, ansiedade, depressão, tristeza, perda de sentido da vida, burnout, o que seja. Pode ser a dança, o canto, a pintura, o croché, um passeio diário, um café num local diferente, uma viagem, uma ida ao ginásio, uma corrida. Precisamos é de ter a capacidade de conhecer aquilo que nos faz bem e de que gostamos. E a verdade é que, numa situação em que a nossa saúde mental está fragilizada, até responder a questões como estas se torna, desde logo, num grande desafio.
Por exemplo, neste momento, estou a vivenciar uma sensação incrível de utilidade ao escrever sobre este tema, desejando que alguém, que precise de ler estas palavras, encontre nelas alguma direção — e, ao mesmo tempo, estou a cuidar de mim, há largos minutos dedicada apenas a esta folha que começou em branco e que me está a permitir tirar um tempo para mim, desacelerar, acalmar a ansiedade do dia e desfrutar de uma frequência de calma, com música ambiente e como inspiração.
Naquele túnel muito escuro, em que, por vezes, nos encontramos, eu digo que já estive lá muitas vezes, confesso, e tenho a plena noção de que o caminho não é linear. Está carregado de subidas e descidas, pelo que a qualquer momento posso estar lá novamente. E, quando estamos lá, muito pequeninos, fechados, dobrados em posição fetal, sem sabermos qual o passo a dar, com quem falar, por onde começar, tomar uma decisão (apenas uma decisão) pode fazer toda a diferença. A decisão de levantar, tomar um banho, sair de casa e escolher alguma atividade, por mais simples que seja, para realizar. Se já formos capazes, pronunciar — ainda que para nós próprios, ou em voz alta, se sentirmos vontade — que, seja qual for o ou os problemas com que nos estamos a deparar, vamos ganhar consciência sobre eles, fazer algo por nós e pedir ajuda. Mas, antes disso, precisamos de reservar um tempo diário para cuidarmos de nós, e é aqui que eu insisto, pois já confirmei em mim e em pessoas próximas o quanto uma simples decisão pode mudar a trajetória.
Assim que comecei a ler as primeiras linhas deste manifesto de responsabilidade coletiva e intervenção social, a que a nossa mentora nos desafiou, e de cujo nome tanto gostei e, por isso, o transcrevo, senti a vontade de fazer a partilha que se segue, porque creio representar a realidade do que, tantas vezes, está ao nosso redor. Há uns meses, um grande amigo meu partilhou, numa história do Instagram, um vídeo de consciencialização para a saúde mental, em que dois amigos iam por diversas vezes assistir, num estádio, a jogos de futebol: um deles, bastante efusivo, a manusear o cachecol, a desafiar o amigo para comemorar os golos, e o outro amigo mais cabisbaixo, a mexer no telemóvel e um pouco ausente do momento que estavam a viver. Este cenário surge várias vezes, em que os dois amigos aparecem sempre no mesmo registo, até que chega o dia em que o amigo mais efusivo, animado e divertido não está na bancada e apenas vemos o amigo «mais apagado» que víamos nas imagens anteriores. As imagens seguintes são muito emocionantes e tristes, quando percebemos (já não me recordo exatamente de que forma é que a mensagem é transmitida no vídeo) que o amigo se havia suicidado.
Acabei de descrever uma história fictícia, mas acredito que seja real em milhares de vidas banais como as nossas. Quantas vezes julgamos a vida de um amigo, um familiar, um colega de trabalho, como sendo uma pessoa feliz, apenas porque surge sempre com um sorriso ou uma gargalhada? Uma palavra amiga ou um gesto de carinho? Quantas e quantas vezes estas pessoas são aquelas que têm o coração carregado de empatia e procuram dar aquilo que gostariam de receber? Curiosamente, são essas pessoas que, na maioria dos casos, já passaram por situações de saúde graves, na própria pele ou na de familiares muito próximos, que já perderam pessoas-base da sua vida, que já viveram verdadeiros momentos de sofrimento. Mas, ainda assim, escolhem sempre sorrir. E quantas vezes as pessoas mais amarguradas, tristes, com a dor e a ausência de empatia na voz, não vivenciaram nenhum momento semelhante na vida e, ainda assim, não têm amor para dar?
Cabe-nos, a todos, e todos os dias, termos um olhar atento sobre cada uma das pessoas que vive ao nosso lado, seja alguém muito próximo, ou um simples conhecido ou vizinho. Essa pessoa pode estar a dar-nos sinais de que precisa de ajuda, ainda que sejam sinais muito disfarçados, e temos de ter a empatia de estarmos sempre atentos uns aos outros e a esses sinais. Hoje, pode ser «aquela pessoa». Amanhã, podemos ser nós próprios a precisar de ajuda.



