Sónia Brandão

por Sónia Brandão

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Ela:

Procurei por ti.

Procurei por ti nas pequenas e nas grandes coisas. Procurei-te.

Ao longo dos anos, andei atrás da minha imaginação, vendo-te em esquinas perdidas da vida.

Sabes, por vezes achei que eras tu, mesmo sabendo que era pouco provável.

Mas acreditei que eras tu.

Dei por mim a falar com estranhos que, por breves segundos, me pareceram tu.

Mas nunca eras.

Nunca eras tu.

Talvez por isso me pareça tão irreal.

Talvez por isso ache que a tua voz não é realmente tua.

Talvez por isso olhe fixamente os teus olhos, na expectativa de que sejam somente uns olhos comuns e não os teus.

Talvez por isso não encontre a voz para te responder.

Talvez.

Ele:

Procurei-te.

Pela primeira vez, em todos estes anos, senti-me pronto.

Senti que este era o momento em que te poderia olhar nos olhos sem que os fantasmas que me habitam o impedissem.

Hoje, tive a coragem de te enfrentar.

«Olá», digo com a pouca voz que encontro.

Ela:

Sei que és tu no momento em que te olho.

Sei-o.

Mas, mesmo assim, não torna mais fácil acreditar que o sejas de verdade.

Sei que não o deveria fazer, mas, assim que a minha mente processa a tua presença, jogo-me nos teus braços, como se nunca daí tivesse saído.

Sinto as tuas mãos no meu corpo e sei que cheguei a casa.

A casa, aquela que me foi tirada por ti, aquela que me transformou numa espécie de espectro que seguia os outros.

Que me transformou num fantasma.

No fantasma que procurou por miragens para seguir por mais um dia.

Tu destruíste-me. Destruíste aquela que ajudaste a criar.

Porque desapareceste.

Desapareceste para te tornares em alguém que não podias ser comigo — palavras tuas.

Mas, hoje, nada disso importa.

Porque estás aqui, os teus braços voltam a estar em mim, voltaste.

Ele:

Se soubesses o quanto sonhei com este momento…

Se soubesses o quanto quis estar contigo ao longo dos últimos anos…

Se soubesses o quanto precisei de ti…

Mas não soubeste porque eu assim o quis.

Não soubeste porque eu te amava demais para te deixar ficar.

Amar também é deixar que o outro parta.

Amar é deixar-se perder para que o outro se encontre.

〰️

O silêncio.

Olham-se ambos em silêncio com todo o peso do passado sobre eles.

Olham-se com todo o amor que nunca desapareceu, com todo o amor que sempre os fez permanecer.

Com todo o amor que os fez esperar.

〰️

Ela:

«Voltaste?», a pergunta que não quero fazer, mas a única que precisa de resposta…

Ele:

Sei o peso das minhas palavras.

Sei que a única resposta que importa é esta.

O resto vamos conseguir resolver com o tempo, mas esta vai ser a única resposta que eu quero que seja real.

«Sim», respondo antes de os nossos lábios se encontrarem novamente naquilo que pareceu uma eternidade perdida.

〰️

A vida nem sempre acontece no nosso momento. A perfeição não existe, por mais que a procuremos.

Ambos lutaram separados porque ele achava que ainda não era o momento de ambos.

Ela chorou, lutou para o reaver, mesmo não o encontrando.

Hoje, a vida criou aquilo que para eles é o momento perfeito para o reencontro agendado.

As conversas vão acontecer, mas hoje só os dois corpos, os dois corações fazem sentido.

About the Author: Sónia Brandão
Sónia Brandão
Apaixonada por palavras, aprendeu, desde nova, a criar realidades paralelas na sua mente — onde tudo era possível. "Amor de Perdição" foi o primeiro livro que leu. Tinha 13 anos e foi a mãe que lho sugeriu para se ocupar. Desde então, nunca mais parou de ler. Durante alguns anos, no entanto, parou de escrever: sentiu que tinha deixado de fazer sentido. Mas o confinamento fê-la regressar à escrita com mais força e determinação. Este ano, surgiu a vontade de partilhar com os outros o que coloca no papel.

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