Daniela Rodrigues

por Daniela Rodrigues

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Hoje, escrevo-te para te relembrar de ti.

Houve uma altura em que era fácil demonstrares o que sentias. Dizias o quanto gostavas das pessoas, às próprias pessoas e isso era-te retribuído. Sabias quem estava lá para ti e quem eram aquelas com que não poderias contar. Talvez tudo fosse mais leve e fácil. Não consigo encontrar o ponto de viragem dessa tua forma simples de ser. Talvez não me tenha apercebido do dia em que isso aconteceu ou talvez tenha sido algo tão gradual que simplesmente te fez perder o hábito. Recordo-me, agora, daquela vez em que não te foi retribuído. Terá sido aí que tudo mudou?

Lembro-me que sempre gostaste de ler (e de escrever). Encontravas nos livros um conforto que não tinhas fora deles. Vivias cada história de forma única, como se fosses parte dela também. Nunca entenderam essa tua forma de sentir, mas talvez essa tua capacidade de te colocares no lugar dos outros tenha começado exatamente aí: nos livros que devoravas e sentias.

Ahh, e os violinos? Quando reconhecias o seu som, no meio de outros barulhos, e te arrepiavas de olhos fechados, a ouvir, a sentir cada nota? Eles foram parte de ti e sei que, muitas vezes, procuras esse som. Há dias em que sentes a necessidade de ouvir. E ainda sonhas em ver um espetáculo ao vivo, não é? Na verdade, sei qual! Estás a pedi-lo há tanto tempo. Lamento que não haja alguém com essa paixão cega, igual a ti, para te acompanhar ou apenas te compreender. Sei que já te julgas velha, mas… talvez ainda possas aprender a tocá-lo. Pensa nisto, sim?

Sei das vezes em que te olhaste ao espelho e pensaste onde te perdeste: onde ficaram as camisas, os saltos altos, a maquilhagem, o reflexo que te elevava a autoestima? Mas tu és mais do que roupas e acessórios. A tua vida mudou e tu mudaste com ela. Sabes o que vejo nesse teu reflexo? Aquele brilho que ainda está aí, quando acreditas em ti e falas das tuas paixões, e o sorriso, aquele que sempre foi fácil. Claro que quem te conhecer poderá notar as sombras no olhar ou as olheiras e o cansaço. Mas, ainda assim, és mais do que isso.

Sempre sentiste demais. Sempre foste demasiado intensa e sensível. E isso não é errado, como muitas vezes te fizeram crer. Essa é a tua maneira de ser e sentir. Lembra-te disso e, quando te apontarem isso como defeito e exigirem que mudes, muda. Não a ti, não me interpretes mal. Muda: de sítios, de pessoas, de vida… muda para onde te valorizem e onde possas ser tu mesma. Mesmo que te pareça impossível. Tu tens o direito de ser feliz.

Sei que, tantas, tantas vezes, te perguntas onde erraste. Minha querida, não erraste. Fizeste as tuas escolhas. Aprendeste com elas. Cresceste com elas. A verdade é que tinham outros planos para ti, mas tu não cabias neles. Teres escolhido fazer o teu próprio caminho foi de uma audácia e coragem que outros nunca tiveram. Alcançaste o que nunca julgavam possível e, tantas vezes, quiseram apagar o teu brilho, amarrar-te e fazer-te voltar: transformar-te na boneca de trapos que era fantoche noutras mãos. Mas tu escapaste disso. Tornaste-te mais.

Sei de todas as vezes que não te julgaste capaz. Vamos olhar para isso juntas? Vês? Tu foste capaz! Tu conseguiste! És prova disso, todos os dias!

Orgulha-te um pouco mais de ti. Vê além do reflexo no espelho. És tão mais do que aquilo que vêem. És amor no olhar e trazes doçura nas palavras. És aconchego no colo e calor reconfortante no abraço. És uma montanha-russa de sentimentos e tens uma capacidade admirável de te colocar no lugar dos outros. És tu. E eu não poderia pedir que fosses menos. Mas posso pedir que voltes a tudo o que, um dia, também foste e que continues a sonhar, a lutar, a sorrir e a sentir, a amar e a tocar corações com a paixão que sempre tiveste: desenfreada. Porque tudo isso é parte de ti. E tu, meu bem, és demasiado especial para te perderes de ti mesma.

Hoje, escrevo-te com amor, para te relembrar que a tua essência continua aí, mesmo que a tenhas deixado adormecida por um tempo. E é ela que quer acordar e voltar a estar presente em cada passo teu. Cabe-te a ti deixá-la voltar à vida e tomar as rédeas dos caminhos felizes que ainda te esperam.

About the Author: Daniela Rodrigues
Daniela Rodrigues
Nascida e criada no coração do Douro, entre o rio, as vinhas e as paisagens de tirar o fôlego, Daniela é apaixonada pelas palavras (e pelos violinos). Escreve desde que se lembra e transforma emoções em palavras, dando vida a histórias que aquecem o coração e envolvem quem a lê, num abraço terno, doce e, um tanto, encantado. Traz em si a imensidão dos sonhos; acredita no amor e nos finais felizes; carrega consigo a essência da saudade e todos os desejos que a fazem viver.

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