por Estefânia Barroso

«Eu tenho de voltar àquela cidade! Eu tenho de voltar àquela cidade que assistiu à primeira golfada de ar com que enchi os meus pulmões, ao meu primeiro grito para a vida mascarado de choro, ao primeiro olhar embevecido da minha mãe para o seu novo rebento. Não sei quando, não sei como, mas tenho de voltar!» Foi este o primeiro pensamento a cruzar a minha mente naquela manhã.
Quis o destino – ou, melhor, a vida dos meus pais – que o meu primeiro olhar para o mundo, assim como os meus primeiros anos de vida, fossem vividos em França, numa cidade situada perto dos Alpes – Chambéry.
Apenas vivi lá os primeiros anos da minha vida. Com pouco mais de seis anos, fizemos o que muitos emigrantes decidem fazer e regressámos a Portugal. Aqui chegados, as bagagens foram pousadas na cidade da Covilhã. Curiosamente, a única semelhança que se poderia encontrar, entre as duas cidades – a francesa e a portuguesa –, era o facto de serem cidades encostadas aos pés de montanhas e, como tal, as visitas à neve serem algo mais ou menos recorrente. De resto, as duas cidades dos inícios dos anos 80 não poderiam ser mais diferentes. Aliás, o Portugal dos anos 80 em nada se parecia com a França daquela época. A velha ideia de que Portugal tinha um atraso de mais de 40 anos em relação a outros países da Europa não poderia ser mais verdadeira, pelo menos neste caso…
Contudo, ainda que o choque cultural fosse enorme, não poderei dizer que não gostei de Portugal e que não me tenha sentido em casa. Afinal, o meu sangue era português e este era o meu lugar. E, por estranho que pareça, ou porque, de facto, as crianças optam sempre por tirar o melhor partido daquilo que a vida lhes traz, rapidamente aceitei este país e a Covilhã como a minha nova casa e releguei para o esquecimento aquele país e aquela cidade.
Cresci e a vida foi decorrendo entre muitas vilas e cidades portuguesas. A minha profissão a isso me obrigou. Em todas deixei um pouco de mim e do meu coração. A todas tratei como «lares substitutos» da minha Covilhã. Em momento algum, até há pouco tempo, senti saudades daquela primeira casa, em França. Até ao dia em que, e sem nada que o fizesse prever, sonhei com Chambéry. Sonhei com a sua zona histórica, com as suas ruas pitorescas, a sua Place des Éléphants, o seu castelo… Passeava-me pelas ruas com uma sensação de leveza, como quem se sente a pairar. Sentei-me em esplanadas, deliciando-me com um éclair au chocolat. Observei os transeuntes não com o olhar de um visitante, mas com uma sensação de pertença àquelas ruas, àquelas velhas pedras.
Senti aquilo que pensei nunca sentir. Saí tão nova daquela cidade que nunca lhe senti a saudade. Sempre me considerei uma cidadã portuguesa, com todas as minhas recordações de infância criadas neste pequeno país que é o nosso Portugal. Sempre pensei que, porque todos os meus ascendentes eram portugueses, não fazia sentido, sequer, pensar que poderia, de alguma forma, sentir que aquela cidade também me pertencia um pouco. Acordei com uma sensação de paz, de quem tinha regressado de uma bela viagem. Afinal, aquele regresso só tinha acontecido num sonho de uma noite de outono.
Contudo, aquele sonho acordou em mim algo adormecido. Como se, entre os ecos do francês esquecido e o perfume imaginário dos croissants matinais, Chambéry me chamasse de volta — não com a urgência de um regresso físico, mas com a doçura de quem recorda um colo. Percebi, então, que o regresso não precisava de malas, nem de bilhete de avião. Bastava fechar os olhos.
Voltar, ainda que apenas em sonho, foi como regressar a um berço. Um berço feito de montanhas e memórias difusas, onde o tempo se suspende e o coração reconhece, sem precisar de provas, o lugar onde começou a bater. Chambéry deixou de ser apenas o cenário de um início longínquo: tornou-se parte daquilo que sou, daquilo que sempre fui, mesmo sem o saber.
Afinal, o regresso — ainda que apenas imaginário — foi um reencontro com as origens, um regresso a casa. Acordei com uma sensação de paz e com uma certeza: «Eu tenho de regressar àquela cidade.»




