Sónia Brandão

por Sónia Brandão

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Quando parti, deixei no ar a possibilidade de voltar.

Não fechei a porta em definitivo. Limitei-me a caminhar, deixando-a entreaberta para voltar, mesmo sabendo que não o pretendia fazer.

Não gosto de portas fechadas. Elas atraem a nossa curiosidade. Fazem com que, por vezes, voltemos atrás só para saber qual o caminho que nos aguardaria se a tivéssemos aberto e entrado.

A vida segue por caminhos, por vezes, inesperados. Na maioria das vezes, não se trata de uma escolha nossa. Seguimos a corrente consoante o que nos é oferecido.

Podemos escolher ficar ou sair de um emprego. Raramente sabemos o que se segue, mesmo quando temos o futuro certo noutro lugar, porque tudo é novo e a surpresa faz parte da vida. Mas arriscamos, porque o futuro não pode ser a certeza confortável. O desconhecido traz a magia, na maioria das vezes.

Podemos terminar uma relação porque outra pessoa surge… Podemos, simplesmente, terminar a mesma relação porque ela já não nos traz um sorriso ao rosto.

Podemos tudo, na verdade.

A vida traz-nos as escolhas. Mas nós só as fazemos quando somos forçados por ela.

A maioria de nós gosta do conforto da rotina, da certeza, mesmo que isso signifique uma existência confortável, sem as emoções que nos tornam humanos.

Quantas pessoas conhecemos que vivem em piloto automático, com a certeza de que o dia de amanhã será similar ao de hoje? Pouco ou nada esperam, somente o continuar até ao fim do dia, sem a esperança de que algo mude.

Quando parti, fi-lo com a certeza de que precisava de vida. Precisava de ter sentimentos, mais do que os normais. Precisava de emoções. Precisava de saber que estava viva.

Viva!

Viva porque sentia, cada vez mais, que era um zombie a viver uma vida cheia de nada.

Nada, porque não amava, não sentia. Não sentia nada — tudo me era indiferente.

Sabem o que custa não sentir? Não perceber se ainda respirava. Não perceber…

Parti…

Parti para longe do mundo que criei e que me criou. Deixei tudo o que me era supérfluo.

Levei a família, os amigos comigo, porque me definem, mas deixei tudo o resto. Sem despedidas. Sem dramas. Só com a certeza de que não devia voltar.

Mas não fechei as portas. Não deitei fora a chave. E a porta voltou a abrir-se para mim…

Talvez tenha somente ido ver a vida fora da minha.

Talvez tenha deixado a vida que me dava vida e voltado.

Voltei porque nunca fechei a porta.

Porque nunca tranquei a porta e deitei a chave fora.

Porque nunca deixei de olhar para a porta entreaberta.

About the Author: Sónia Brandão
Sónia Brandão
Apaixonada por palavras, aprendeu, desde nova, a criar realidades paralelas na sua mente — onde tudo era possível. "Amor de Perdição" foi o primeiro livro que leu. Tinha 13 anos e foi a mãe que lho sugeriu para se ocupar. Desde então, nunca mais parou de ler. Durante alguns anos, no entanto, parou de escrever: sentiu que tinha deixado de fazer sentido. Mas o confinamento fê-la regressar à escrita com mais força e determinação. Este ano, surgiu a vontade de partilhar com os outros o que coloca no papel.

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