por Daniela Rodrigues

Escolho as cores de cada linha, cada tom, cada contraste, cada pequeno pormenor. Perco-me a encontrar a luz perfeita para o momento e não há mais nada à volta: vou iniciar mais uma peça artesanal, daquelas que tanto gosto de fazer – um artigo personalizado para um bebé.
Será um bordado, cheio de cor e amor? Um babete que vai encantar quem o vir colocado naquele bebé ou uma fraldinha de pano com uma pequena frase. Talvez uma toalha de banho para aquela rotina que passa a ser especial ou uma mantinha para cobrir o ovo. Quem sabe, uma almofada para decorar a cama ou um quadro com os dados de nascimento, como lembrete do inicio da aventura mais deliciosa da vida, que fica eternizado ali, na parede.
Será um bonequinho em crochê? Um peluche para acompanhar sempre o bebé ou um polvinho para ficar do lado dele desde o nascimento. Um mobile para o berço ou um quadro decorativo. Um doudou para adormecer o bebé ou um pormenor lá do quartinho. Talvez o nome para pendurar no berço ou na parede. Ou um simples porta-chaves para os papás ou os avós.
Escolho por onde vou começar: a primeira cor, os primeiros pontos. Preparo a linha, a agulha e a magia começa. O amor que carrego em mim fica em cada ponto e faz parte de cada peça terminada. Ali, sei que posso sempre amar mais, de uma forma boa. Como se cada ponto se refizesse dentro de mim, juntando os pequenos pedacinhos que teimam em autodestruir-se. Assim, me reconstruo, entre as linhas coloridas que me fazem acreditar e sonhar de novo, e de novo, a cada peça.
Umas vezes, são coisas mais simples – e eu aprendi a valorizá-las e a amá-las na mesma medida que as mais trabalhadas. Mas, confesso, apaixono-me sempre pelos trabalhos maiores, mais exigentes, com mais pormenores. Ocupam-me mais tempo, mas é tão gratificante chegar ao final! Esses são momentos em que tenho orgulho de mim mesma: quando tenho na minha frente o resultado final de um trabalho.
Às vezes, os pontos enlaçam-se e os fios teimam em desunir-se. Ou, por algum lapso de atenção, cansaço ou um piscar de olhos, um ponto fica no sítio errado. É irritante! Tenho de parar, perceber onde está o problema e voltar atrás para corrigir. Na vida, é um pouco assim também. Por vezes, precisamos de parar para descobrir o que está errado, ou o que nos faz mal, para o podermos corrigir e voltar a ficar bem. Talvez precise de bordar a minha vida com o mesmo cuidado com que bordo cada pecinha preciosa. Talvez precise de acreditar mais em mim, como acredito em cada volta que dou na linha para completar o ponto necessário naquele momento.
O encanto está em chegar ao final, após cada ponto, sabendo que ali está amor: o de quem idealizou aquele tema, aquela peça e o meu, que lhe dei cor e vida para tornar realidade a ideia de alguém.
Houve um dia em que a palavra “entrelinhas” me fez um sentido gigantesco ao pensar nela, porque lhe encontrei um duplo sentido ou porque me encontrei nela.
“Entrelinhas” porque as adoro. Porque me cativa lê-las e descobri-las, à minha maneira. E porque me dá um gostinho especial escrevê-las.
“Entre linhas” porque é parte da realidade em que vivo. E, aqui, não são só as linhas dos meus cadernos – aqueles onde vou espalhando palavras… Mas, sim, as linhas com que as minhas mãos trabalham: os meus bordados, as minhas costuras, o meu crochê e os meus amigurumis.
Sabes porque gosto tanto de criar estas coisas para bebés? É que, desde que me lembro, sempre tive o desejo de ser mãe. Pudesse eu ter dezenas de filhos que era mesmo isso que faria! Como a vida não o permite… encontrei nas peças de bebé um refúgio que me acalma e que leva parte de mim para cada um daqueles bebés que usa aquilo que passou pelas minhas mãos.
É carinho, cuidado e amor, entre cada ponto. É sonho e desejo em cada cor. É orgulho e prazer em cada sorriso e elogio ao resultado final. E é tudo isso que me preenche, me faz continuar e me vai alimentando os sonhos e curando os desejos que foram ficando perdidos no tempo.
E é aí, nas minhas mãos, que vive o meu talento (e a magia): entre as linhas e as palavras.
Sou amor. Sou uma artesã de palavras.




