por Inês Biu Faro

Há já algum tempo que tenho o hábito de inventar palavras ou juntar duas ou três numa única. E, hoje, em conversa com uma querida amiga, surgiu esta. Ela notou o meu silêncio, abriu o seu colo para mim e eu, sem saber bem o que dizer, respondi-lhe que me sinto «enchuvada».
E é mesmo como descrevo o meu humor. Entre cansada fisicamente e cansada do mau tempo, da tristeza que o tempo cinzento carrega. Sinto a alegria de uma manhã de trabalho diferente, muito boa e produtiva, mas depois saio para a rua e é esta miséria de chuva e tempestades… para piorar, a chuva traz-me ainda mais os gatilhos passados, de saudades de quem eu já não devia sentir falta, do calor humano, de silêncios ensurdecedores seguidos de palavras que purgam tudo e culminam num abraço que me envolve inteira, onde posso sentir-me pequena sem deixar de ser grande, onde posso ser vulnerável sem medo de cair.
Não é por romantizar as dores que elas se curam melhor ou desaparecem mais rápido. E, mesmo tendo já vivido e curado outros grandes amores, foram todos diferentes e este tem sido mais difícil do que os outros. Muito provavelmente, por eu estar madura e ter outra percepção de tudo.
No fundo, a tristeza da chuva aperta-me os gatilhos da saudade e do amor perdido. Não sentia tanto a falta do Trovador desde o Natal. Queria conseguir arrumá-lo, como escrevi, mas não pensava que seria tão difícil. Continuo a procurá-lo nas esquinas da vida e nos silêncios do meu quarto. Ainda sonho com ele e as lembranças atropelam todos os outros pensamentos para serem as protagonistas dos meus dias. O barulho da chuva lembra-me os duches que tomámos juntos, quando nos amámos com o calor da água e a ternura dos toques. Queria já não ter saudades suas, mas tenho. Todos os dias, tenho mais e mais saudades suas. Quero esperar por ele em casa. Quero tê-lo à minha espera. Quero contar-lhe o meu dia-a-dia. Quero que me cale com beijos. Quero que me abrace e diga que está ali para mim, como eu para ele. Queria já não sentir a sua falta, mas sinto e é tão difícil não tê-lo ao pé de mim.
Sinto-me «enchuvada» e, no meio disto tudo, agradecida por usar maquilhagem à prova de água! Não por andar à chuva, mas por já ter chorado. Esta mesma amiga, que me deu colo, também me disse que me sentiria melhor depois de libertar e assim foi. Chorei e melhorei. Escrevi e melhorei.
Acredito que, tal como ela, também muitas das minhas leitoras sentirão empatia por mim, por este sentimento de chuva interior que não conseguimos explicar. Torna-se incontrolável, mas não tem de se arrastar por muito tempo. Eu, pelo menos, não deixarei que se prolongue. Vou abraçar-me, vou procurar palavras de conforto em mim mesma e aceitar os colos que me forem dados, não só por esta amiga, como por todas as outras amigas que conhecem os meus silêncios chuvosos e ensurdecedores.




