por Estefânia Barroso

Durante muito tempo, achei que amor era algo que só se sentia uma vez, reconhecível numa só pessoa. A vida encarregou-se de me mostrar o contrário. O amor muda, transforma-se e aparece onde menos esperamos. Hoje sei que vivi – e continuo a viver – muitas formas de amor e que todas elas me ensinaram algo essencial sobre mim.
Iniciando a minha lista das diferentes formas de amor que vivi, terei de começar por aquela que me deixa sempre com um sorriso no rosto: o amor de infância. Costumo dizer, em tom de piada, que o primeiro homem com quem partilhei a minha cama chamava-se «António» (façam favor de ler com um sotaque italiano) e eu tinha uns cinco, seis anos! Era o filho da vizinha que fazia, às vezes, de ama quando os meus pais iam trabalhar e eu ficava em casa (em França, à quarta-feira, não havia aulas). Chegava ainda bem cedo e ia deitar-me na cama dele para continuar o sono dos justos. António teria uns 10, 11 anos e eu achava-o fascinante. Ele, percebendo essa minha admiração, contava-me as histórias mais parvas de que se podia lembrar e eu, embevecida, acreditava em tudo. Bebia as palavras dele! Muitas vezes me lembro de chegar a casa e contar à minha irmã as coisas com que ele me ludibriava e, invariavelmente, ouvir: «És mesmo parva!»
Nunca mais vi o António, desde que vim para Portugal. Mas a verdade é que nunca deixei de ter curiosidade em saber o que seria feito dessa minha primeira «paixonite» não correspondida…
Depois dessa primeira experiência, e com a chegada da adolescência, aconteceram alguns amores, a maioria a que poderia chamar de «amor idealizado». Hoje, quando penso nessas relações, por vezes tão efémeras, percebo que gostei mais da ideia de gostar e de acreditar que amava do que, propriamente, dessas pessoas. Ainda assim, de uma forma ou de outra, deixaram memórias leves e divertidas (não fui uma adolescente que sofreu horrores por amor).
Mais tarde, veio a idade adulta e, com ela, o amor correspondido (pelo menos, durante algum tempo). Hoje, passada a dor da separação, percebo que nunca foi um amor certo, não deixando de ser amor. Guardo algumas memórias bonitas desse tempo. E lembro-me de que ríamos muito (e isso vale ouro!). Foi uma relação (e o seu término) que me fez crescer imenso enquanto mulher. Poderia dizer que existe uma Estefânia antes e uma Estefânia depois desse amor terminado. Foi um amor correspondido que passou, a seu tempo, a um outro tipo de amor – o amor que magoa. Com ele aprendi que há que saber pôr um ponto final nas relações quando começamos a sentir que já não estamos em sintonia. Aprendi que o amor tem de ser ligeiro, fácil de viver. Na altura, não entendi nada disso. Pensava que tinha de lutar com todas as minhas forças por algo em que acreditava. Devia forçar um entendimento. Apenas desisti quando senti que já não havia nada de positivo ali. Estava tudo podre… e já não ríamos. E do amor correspondido nada ficou – nem uma amizade! Apenas a memória de um amor que magoou, deixando marcas profundas, feridas que levaram muito tempo a sarar.
Esse amor deu lugar, algum tempo depois, a um amor que não era amor. Nunca foi. Era apenas um amor de substituição. Um amor que nasceu pelo meu medo de estar só, pela vontade de estar acompanhada e de partilhar a minha vida e os meus pensamentos com alguém. É claro que um relacionamento baseado nesse medo de estar só não poderia sobreviver muito tempo…
Contudo, foi o fim do amor correspondido que se transformou em amor que magoa e o amor de substituição que deram lugar a um outro tipo de amor. O amor por mim mesma. Deu-me muito trabalho encontrá-lo e, assumo, continua a ser uma trabalheira mantê-lo. O amor próprio começou no dia em que parei de me abandonar, de apagar parte de mim para fazer parte de um amor que eu queria viver e sentir acima de tudo. Foi um dos atos mais revolucionários da minha vida. Não me tornei perfeita, mas deixei de exigir isso a mim mesma. Passei a aceitar-me como sou e a amar-me acima de tudo. Nada de aceitar algo que me diminuísse ou não me fizesse crescer.
Depois… depois há aqueles amores que vieram demasiado tarde. As vidas já tinham sido organizadas de tal forma que já não havia espaço para esse amor ser vivido, crescendo como deve acontecer a tudo o que é vivo. E o que não cresce… morre. Ainda assim, posso dizer que, mesmo sem continuar na minha vida, será sempre o amor que fica alojado num cantinho do coração. Não foi totalmente vivido, mas não é esquecido, tendo ligado a ele a eterna pergunta: «E se?»
Por fim, quero ainda mencionar dois tipos de amor que só aprendemos a valorizar condignamente quando ganhamos alguma maturidade e que eu, neste momento, prezo acima de tudo. Por um lado, o primeiro amor que sentimos, aquele que nos fez ser quem somos. Aquele amor que cedo nos ensina que estarão lá sempre para nós. O amor de família. Primeiro e último reduto de amor e segurança. E, por outro, aquele amor que é escolhido por nós: o amor dos amigos. Aquele verdadeiro amigo, que fica tão feliz com as suas conquistas como com as tuas. O amor que nos celebra. Que nos faz bem. Que não exige nada em troca. Um tipo de amor leve, que compreende, que é abraço, que é aconchego.
Hoje sei que o amor não cabe numa só definição e muito menos cabe numa única pessoa. O amor vive-se em camadas e em muitos seres, em tentativas, em reencontros – connosco e com os outros. Hoje percebo que não há uma forma certa de amar. Há apenas a coragem de viver o amor, sempre que ele aparece na nossa vida, seja sob que forma for.




