por Inês Biu Faro

«You’re the light, you’re the night. You’re the colour of my blood. You’re the cure, you’re the pain. You’re the only thing I wanna touch. Never knew that it could mean so much, so much. You’re the fear, I don’t care. ‘Cause I’ve never been so high. Follow me through the dark. Let me take you past the satélites. You can see the world you brought to life, to life. So love me like you do, lo-lo-love me like you do. Love me like you do, lo-lo-love me like you do. Touch me like you do, to-to-touch me like you do. What are you waiting for? Fading in, fading out. On the edge of Paradise. Every inch of your skin. Is a holy grail I’ve gotta find. Only you can set my heart on fire, on fire, yeah. I’ll let you set the pace. ‘Cause I’m not thinkin’ straight. My head’s spinnin’ around, I can’t see clear no more. What are you waiting for? So love me like you do, lo-lo-love me like you do. Love me like you do, lo-lo-love me like you do. Touch me like you do, to-to-touch me like you do. Oh, what are you waiting for?» – «Love Me Like you do», Ellie Goulding
Sempre fui assim. Desde que me lembro de ter namorados que o que mais me recordo é de me dissolver nos relacionamentos, deixar que o outro determinasse todo o andamento, a maneira de vivermos o romance – ou não –, a maneira como era realmente construída a relação e que passos dávamos a cada dia. Queria tanto ser amada como eu amava, como lia nos livros e via nos filmes, que não me dava conta de que me amava pelos dois. Queria contos de fadas e perdia-me no encantamento.
Por mais bonito que o encantamento seja, nem sempre é bom e isso veio a revelar-se nalguns dos meus relacionamentos tóxicos, onde deixei de viver por mim e para mim e passei a viver em função de alguém, para agradar alguém. Queria ser vista e notada e era eu quem mais falhava na valorização, no amor próprio e na autoestima, e perdia tudo aquilo pelo que eles se tinham apaixonado, o que, naturalmente, não trouxe finais felizes.
Os contos de fadas estilhaçavam-se, e eu voltava ao fundo do poço, à desvalorização e à invisibilidade, até ter começado a ganhar forças, até ter começado a abrir os olhos para reparar na mulher maravilhosa que sou.
De dia para dia, reconheço cada vez mais que tudo o que sou e tenho não se mede em objectos, trabalho, conta bancária ou sequer em canudos académicos. Tudo aquilo que sou vem do meu coração, vem da minha imaginação, da minha criatividade, vem do meu mais íntimo, que ainda não conheço na sua totalidade e que, se a mim me maravilha, imaginem a quem me vê de fora.
Não tem sido fácil. Todavia tem sido uma luta gloriosa e que gera bons frutos. O facto de reparar no melhor que há em mim ajuda-me a valorizar-me. Por conseguinte, deixo de depender da valorização do outro – da qual, na verdade, não preciso nem devo depender – e acaba por atrair os homens mais ou menos acertados – tentativa e erro, minhas queridas, tentativa e erro!
Acabo por transparecer muito mais jovialidade, inteligência, criatividade e diversão. Ao dizer sim a mim mesma, digo-o também ao amor e a quem me quiser bem, a quem me quiser conquistar e ter como companheira.
Lembram-se das Trovas que escrevi no mês passado? Exacto. De todos os meus namorados, o Trovador foi quem mais me ensinou – ide reler aqui, eu espero. Não posso aceitar metades do outro, nem dar metades de mim, assim como também não posso esperar que alguém me retribua na mesma proporção que eu dou, nem minimizar o que dou só para caber no outro. Cada pessoa se entrega e sente à sua maneira. Não é possível ter muitas expectativas. E as expectativas amorosas sempre foram as minhas maiores inimigas. Como sonhadora nata que sou, esperava receber sempre tudo, conforme eu dava, e foi o meu maior erro. Era aí que eu me dissolvia.
No entanto, já aprendi a não esperar mais. Eu dou o que quero, a quem quero, como sou, como sempre serei. Claro que me adaptarei. É que esta intensidade também pode assustar e afastar, algo que também tenho aprendido! Posso e devo ser fiel a mim mesma, ser genuína, mas também devo aprender a conhecer quem tenho à frente e a receber o que tiver de bom para me dar.
Não voltarei a tolerar violência psicológica, nem toxicidade. Ao mínimo sinal ou trigger, recuo, analiso e exponho, converso! Tem sido esse um dos meus maiores problemas: falar. Tenho medo de falar do que me incomoda e/ou dói, por medo de perder quem amo, por medo de afastar. Tento sempre agradar até à última instância e, depois, onde fico eu? Como fico eu? Tudo o que recebo acabava por me ser insuficiente e não compreendia porquê, o que tinha feito de errado. Assumia que era eu o problema e dissolvia-me ainda mais.
Por conseguinte, não! Não volto a ficar calada. Não volto a interpretar mal os sinais. Não volto a pedir mais do que os outros são capazes de me dar.
Sim! Vou valorizar-me. Vou amar-me. Vou dar-me mais a mim mesma do que ao outro. Vou cuidar-me antes de cuidar e aceitar que me amem e cuidem na proporção que for possível. Vou adaptar-me — e não dissolver-me.
Vou permitir-me amar e ser amada não como os contos de fadas, que adoro desde criança, mas com o conto de fadas possível de construir com quem quer que seja o sortudo que fará de mim também uma sortuda — para que amar pelos dois seja mesmo a dois.




