por Daniela Rodrigues

Um dia, olhei para dentro e percebi que os pesos que carrego não vêm do meu presente, de quem sou hoje ou das escolhas que fiz, mas sim de um passado.
Um passado onde me era exigido ser mais do que outras pessoas – não era ser mais eu, era ser mais do que a pessoa X.
Um passado onde me era exigido ser melhor do que alguém – não uma versão melhorada e evoluída de mim mesma, mas melhor do que a pessoa Y.
Um passado onde me era exigido fazer mais – não mais daquilo que estava ao meu alcance, mas mais do que a filha de Z, a neta de K, a vizinha da outra rua…
Esse acumular de exigências que me eram dirigidas moldaram uma parte de mim a seguir um caminho onde nem era eu que caminhava: as pegadas estavam lá, eu tinha de me manter naquela rota sem ser alguém mais alinhada a mim, a quem eu era de verdade, ao que eu sentia. Não era permitido ser eu. Não era permitido seguir por uma direção mais alinhada comigo. Só tinha aquele caminho. Era isso ou mais nada. Sem escolha. Sem alternativa. E eu seguia, obrigada a isso. E fugia, de mim e daquela realidade, através dos meus livros, dos meus sonhos e das palavras que já escrevia.
Hoje, sei que ainda carrego comigo tudo o que me foi impedido antes. Ou melhor: carrego tudo o que me proibiram a mim e permitiram a ela. Percebi que, durante anos, alimentei isso: algo que reconheço agora, como pequenos detalhes, pequenas mágoas que ficaram gravadas e que não deixei que se apagassem de mim. Mesmo sem me aperceber. Talvez porque nunca tinha olhado para isso com olhos de ver.
Mas também houve um dia em que comecei a deixar ir cada pedacinho que me magoava. Comecei a libertar-me das pequenas coisas, dos pequenos detalhes, das pequenas obrigações que me eram impingidas e não eram parte de mim sequer. Um dia, disse que não — «não vou», «não quero», «não me apetece», «não volto». E senti-me leve. Realmente, muito mais leve. E talvez tenha sido aí que realmente comecei a mudar a rota, a perceber que posso escolher e que já não podem impedir-me de seguir o caminho que eu escolher porque, afinal, a vida é minha e, tal como as escolhas, o cair e reerguer também têm de ser meus e sem interferência do que outros julgam ser melhor para mim. Porque eu ainda conto, ainda tenho a minha voz, ainda posso decidir o que quero. E quero ter a paz e a leveza de seguir o caminho que eu escolher sem ter de pensar em quem nunca pensou em mim e se limitou a exigir mais e mais, mesmo quando isso me destruía em cada frase, em cada dedo apontado, em cada proibição ou limite imposto.
Um dia, entendi que não era só o meu passado que me magoava – era tudo aquilo que eu insistia em guardar, em não esquecer, que mantinha as minhas feridas abertas. Precisava de me perdoar a mim mesma. Não esquecer, mas deixar de me magoar, em silencio, com cada recordação que teimava em manter viva, em vez de deixar ir.
Hoje, escolho ficar num sitio seguro, numa distância segura, que me mantém serena. Hoje, escolho ficar longe, sem a mágoa que antes sentia, sem a culpa que insinuavam que eu tinha de sentir. Hoje, escolho ter o meu caminho e não me privar de escolher a direção, porque me conheço um pouco mais e sei o que não quero para mim. Hoje, escolho fazer as pazes com essa versão de mim que não podia ser eu e que tinha de se anular a cada instante. Hoje, escolho seguir mais leve, sem quem não me viu, sem as amarras de um tempo que já foi.
Hoje, escolho libertar-me e seguir, soltar-me e deixar-me ir.




