por Sofia Reis Cardoso

Minha doçura:
Sempre que penso em ti, ou me dirijo a ti, é assim que te trato na maioria das vezes, verdade? Recentemente, «meu amor» passou a fazer parte do nosso vocabulário. Como é que chegámos até aqui? Ao início, tudo me pareceu demasiado físico, carnal, sem ligação emocional, superficial. Mas, no primeiro momento que me quis afastar, percebi que estava muito mais envolvida do que podia imaginar.
Tantas vezes recordamos aquela tarde em que nos vimos pela primeira vez. Convidaste-me para dançar e perdi a noção do tempo. Parámos de dançar e tu disseste-me «não fujas, porque eu quero voltar a dançar contigo». Sorri, envergonhada, mas mais tarde fui eu que te estendi a mão para voltarmos a dançar. Assim ficámos até as luzes acenderem e a festa acabar. Convidaste-me para seguir contigo para uma outra festa e eu recusei. Pediste-me para ficar com um meio de contacto meu e, mais tarde, enviaste-me mensagem. Senti que não eras só mais um homem com quem eu tinha gostado muito de dançar. Mas não dei grande atenção, nem dei grande seguimento às mensagens.
No domingo seguinte, sem combinarmos, voltámos a encontrar-nos no mesmo local. Tu sabias que eu ia atuar nessa tarde e disseste que ias assistir, mas eu pensei que não aparecesses. Afinal, estavas lá. Voltámos a dançar e, mais uma vez, perco a noção do tempo, mas julgo que estivemos seguramente três horas a dançar um com o outro. Conversámos, brincámos e confirmámos uma química que eu estava a ignorar que existia. Estava sempre à espera do momento em que ia sentir um pisar da linha da tua parte, em que eu ia ficar desconfortável e com a necessidade de parar a dança, mas não aconteceu. Nada em ti me fez ter medo. Pelo contrário, a partir do momento em que nos envolvemos novamente no abraço da kizomba, a energia que trocámos e a tranquilidade que me transmitiste fizeram com que dançássemos uma e outra e outra dança, dezenas de danças.
Sem que nada estivesse combinado, depois de algumas conversas trocadas durante a semana que se seguiu, naquela sexta-feira, encontrámo-nos num local em que a probabilidade de eu estar ali era muito reduzida, mas não consegui esconder a satisfação quando os nossos olhares se cruzaram. A nossa ligação consolidou-se ainda mais naquele dia e assim continuou nos dias seguintes.
Sempre que dançámos, a conexão foi tal que parecíamos um só corpo — seguir os teus passos é como que ser uma extensão do teu corpo, a cada vibração, a cada marcação mais intensa, a cada bloqueio. Mais do que seguir os teus passos, acompanhei-te sempre com o coração, ao ponto de só o nosso peito se tocar, afastar a minha cabeça da tua e vermos como os nossos corpos fluíam com a música. A cada momento que me deixei envolver pelos teus braços, fechei os olhos e todo o peso dos meus ombros, da minha cabeça, do meu rosto, desaparecia por completo ao ponto de não pensar em mais nada, quase como se estivesse a meditar.
Em todas as vezes que fizemos amor, desde o primeiro momento, os nossos corpos completaram-se e uniram-se como se já se conhecessem há muito tempo. Cada minuto que, simplesmente abraçados, nos sentimos e nos desejámos cada vez mais, alcançando picos de desejo e de prazer que eu julguei que nunca mais iria alcançar, deixam-me marcas que fazem com que a minha despedida de ti seja tão dolorosa. Todas as horas que dormi no teu peito, que me acariciaste a cabeça e mexeste no meu cabelo, foram as horas que descansei e dormi mais profundamente nos últimos meses. Se eu fechar os olhos neste instante, consigo transportar-me para a fortaleza que é o teu abraço, tão quente e tão intenso, a contrastar com a suavidade do toque da tua pele e isso leva-me a sentir o peso das lágrimas que teimam em não se segurar, por saber que tenho de conseguir estancar esta ligação.
Cada dia que passa é mais um dia em que me estou a impedir de viver a plenitude que eu acredito que me está destinada. Sempre que eu trago as minhas inseguranças à tona, dizes: «Sofia, não te esqueças que fui eu que te quis!». Da última vez, ocorreu-me dizer-te uma metáfora, que tu reconheceste, em que te expliquei que o que tu fazias comigo era o mesmo que eu faria se tivesse comprado uma planta bonita, com um verde muito vibrante, a levasse para casa, mas não lhe desse água, sol, nem cuidasse dela. O que sinto sempre é que te escudas no facto de eu ter «fugido» de ti, julgando que, se não fosse a tua insistência, hoje não estávamos aqui. Mas a grande verdade é que estamos aqui, hoje, porque eu quero, porque eu permito e vivo alimentada pelos momentos em que estamos juntos, fingindo que não perco a conta aos dias que passam sem te ver, que as tuas mensagens ou telefonemas são uma possibilidade, mas não uma certeza, na desculpa de vivermos um dia de cada vez, sem projeção de futuro.
Lamento, mas eu não sei amar pela metade. Só sei dar-me por inteiro, com toda a intensidade que me carateriza e que me leva a querer receber da mesma forma. Não sei, não posso, nem quero ser uma segunda opção. Quero ser a escolha de alguém todos os dias, sem ter de o pedir, mas sim porque é essa a vontade da outra pessoa, por aquilo que eu sou e represento. Mas também sei que nunca vou ter isso de ti. Por isso, cabe-me a mim soltar-te, desapegar-me e seguir o meu caminho, por muito que o conforto, amor e leveza que me trouxeste me prendam a ti e me façam duvidar.
Continuar neste enredo seria desrespeitar-me, dizer-te «sim, eu aceito que me continues a dar as migalhas que me dás, porque não mereço mais», seria viver em constante ansiedade pela incerteza que me trazes todos os dias e que me faz lembrar uma versão de mim que eu não quero mais. Essa versão de mim tão frágil, manipulável, que se reduz para caber e dá tudo de si por medo de perder.
Mas, hoje, eu perdi o medo de te perder. Não tenho mais medo de perder alguém que se diz ser um grande protetor e defensor da mulher, porque isso é bonito de se afirmar. Só que, mais bonito do que dizer, é agir de acordo com aquilo que se diz ser e, desculpa a franqueza, mas tu és o oposto.
Esta carta não serve para te apontar o dedo. Serve apenas para me despedir e fechar esta história. Dizer-te que guardo com carinho os bons momentos, mas não posso mais abrir mão da minha vida e da minha felicidade. Guardo tantos, mas, principalmente, aqueles em que me disseste que era bom estar no meu colo, que te sentias bem por eu cuidar de ti, aquele em que pela primeira vez me trataste por «pikaxu» por considerares ser um nome carinhoso e que representava algo «teu».
Desejo-te o melhor, sempre. Para ti e para as «pestinhas» que me encantaram desde o primeiro dia, mas hoje escolho-me a mim.
Sofia



