por Estefânia Barroso

Ainda que continuemos na estação do inverno, o facto é que a primavera chegou e, há que dizê-lo, para quem observa a natureza, ela já foi chegando em todo o seu esplendor. Basta olharmos à nossa volta para ver que as flores do campo, as flores das árvores, já estão por aí para alegrar todos aqueles que caminham um pouco fora das cidades.
Sendo uma apreciadora do sol e do calor, sou mais uma amante do verão do que qualquer outra estação. Contudo, reconheço na primavera um certo encanto. Ao observarmos a natureza percebemos que é na primavera que tudo volta a acordar, que tudo se tinge de cores maravilhosas, altura em que as árvores se carregam de flores que, mais tarde, darão lugar a saborosos frutos. Haverá quadro mais bonito?
Adorando o verão, assumo que gosto muito da ideia de eterno recomeço que esta estação nos traz. Esta é uma das muitas lições que a primavera e a natureza nos trazem. Mas não é a única.
Outra lição oferecida pela natureza é a da persistência. Para a natureza não importa o número de vezes que cais, mas, sim, a quantidade de vezes que te levantas. A natureza persiste, ano atrás de ano, a fazer nascer e crescer os seus frutos que, cedo ou tarde, morrerão. E como é que ela responde a esta morte? Com um novo nascimento. Assim possamos nós aprender e replicar essa capacidade de persistir e renovar…
Para além disso, a natureza, em particular as árvores de fruto, não perdem a capacidade de florescer mesmo que não tenham garantia do resultado final. As árvores sabem que nem todas as flores que nascem nos seus ramos darão lugar a um fruto. Muitas das flores, por causa de um vento que as arrancará demasiado cedo, uma geada que as queimará, ou por tantas outras razões existentes para a flor cair, não vingarão. Não serão fruto num verão anunciado. Mas, ainda assim, as árvores não perdem a esperança contida em cada primavera, de voltar a florescer. Haverá um símbolo maior de fé e esperança? Ainda que os nossos sonhos, os nossos desejos não se concretizem, tenhamos a coragem e a fé de recomeçar, sempre, e acreditar que um resultado positivo poderá acontecer, um dia.
Outra lição que podemos retirar da sabedoria da natureza é a de que tudo chega a seu tempo. Há que ter paciência enquanto esperamos. E, se não vier, tal como acontece na natureza, é importante lembrar que nem tudo o que tem um início acaba por se cumprir. Não percamos a coragem e a vontade de voltar a começar, tendo a ideia que a vida nos oferece sempre recomeços, outras possibilidades, apesar de ter havido perdas anteriores.
Talvez a maior lição que a primavera nos ensina seja mesmo o lembrar-nos de que o recomeço não acontece apenas nos campos e nas árvores, mas também dentro de nós. Tal como a natureza decide, ano após ano, voltar a florescer, também nós podemos escolher renovar o que em nós parece cansado, seco ou adormecido. Podemos permitir que a nossa própria primavera regresse.
Que possamos olhar para a natureza na primavera e consigamos aproveitar para a nossa vida os seus ensinamentos. Que saibamos cultivar dentro de nós um pequeno jardim — um lugar de esperança, de paciência e de coragem — que não desista de florescer. Porque, mesmo depois dos invernos mais longos, a vida encontra sempre uma forma de voltar a nascer. E talvez viver seja precisamente isso: continuar a acreditar que, em algum momento, uma das nossas flores há de transformar-se em fruto.




