por Sónia Brandão

Aquele momento, em que te ouvi dizer «acabou», chegou sem aviso, sem motivo. Até ao dia anterior, tudo ia bem. Nada fazia prever este desfecho. Pelo menos, não na minha mente.
Apesar de toda a rotina que existia na nossa vida, de algum afastamento provocado pela mesma, achei que as coisas iam voltar a ser aquilo que tinham sido no passado, mas aparentemente eu perdi as pistas do fim que iam surgindo, segundo tu. Não justificaste o «porquê». Não conversaste comigo à procura de uma volta. Limitaste-te a dizer acabou e a sair. Em poucas horas, tiraste tudo o que tinhas na nossa casa. Em poucas horas, apagaste a tua existência na minha vida.
Quando bateste a porta ao sair, eu ainda não tinha percebido aquilo que tinha acabado de acontecer. Parecia somente um sonho, um sonho que eu não comandava, que me limitava a assistir sem nada poder fazer para mudar o seu curso. Sentei-me no sofá e, durante horas, limitei-me a fitar a porta por onde saíste. Horas depois, o despertador tocou, e eu segui o dia em piloto automático. Entrei em modo «não aconteceu nada». Vivi o dia sem falar do assunto, sem o enfrentar como algo real.
Quando cheguei à nossa casa, agora minha, desabei. Chorei, questionei o «porquê» na minha mente, liguei-te — o teu número não estava atribuído. Apagaste a minha existência, a nossa história, como se ela nunca tivesse sido real. Procurei conforto no colo da minha mãe, entrei de rastos e mantive-me lá, no seu colo, por bastante tempo. Quem mais poderia perceber a dor em que me estava a afundar? O colo de uma mãe cura. Ajudou-me a encontrar as minhas razões para tudo acontecer desta forma, mesmo não fazendo muito sentido naquele momento.
Sempre que uma porta se fecha, abrem-se janelas que nos fazem caminhar, dizem. Mas nem sempre é assim. Por vezes, as portas fecham-se e as paredes tendem a fechar-se da mesma forma em torno de nós, e só nos resta deitarmos e esperar pelo fim. Esta metáfora, por mais forte e terminante que seja, é real. Em alguns momentos, muitos de nós tivemos a noção de que era isso que se seguia. Felizmente, na maioria das vezes, conseguimos levantar-nos e derrubar a porta que antes se fechou. Reerguemo-nos e surgimos no meio das nossas ruínas.
O tempo passou. Eu recuperei, aprendi a viver sem ti, voltei a viver por mim. Voltei a sorrir, a ter prazer nas pequenas coisas. Mudei. Porque inevitavelmente as dores, provocadas por outros ou pela vida, mudam-nos, fazem-nos ver o mundo de forma diferente. Se tivermos sorte, tornamo-nos numa melhor versão de nós mesmos. Foi isso que me aconteceu. Tornei-me melhor.
Mas, por vezes, acontecem mudanças bruscas de direção. Tu voltaste. Com a maior das confianças, apareceste um dia em minha casa, como se ainda fosse tua, e achaste que tudo poderia voltar a ser o que provavelmente nunca foi. Ouvi-te pedir desculpa. Ouvi-te fazer declarações de amor vazias. Ouvi-te com mais respeito do que alguma vez tiveste por mim. Mas não. Não te deixei regressar. Nem sempre o passado é o nosso lugar. Na grande maioria das vezes, o futuro é o que almejamos. Desejei-te boa sorte, mas disse não.
Insististe, durante algum tempo, até que percebeste que não ia voltar. Na verdade, tu também não o querias, mas querias o conforto de ter alguém à tua espera depois de todas as loucuras que vivias longe de mim.
Recomeçar. Criar o novo. Esta pausa não me definiu, mas ensinou-me lições para sempre recordadas. É aqui que me encontro, no recomeço da minha história ainda por desvendar.




