por Inês Biu Faro

Faço anos na primavera, tal como a Violetta, mas desde que saí da faculdade que deixo que o meu aniversário passe quase em branco. Tenho a família longe e, para celebrar um único dia, as viagens tornam-se longas e cansativas.
Ainda assim, este ano está a ser diferente e por sua causa. Já namoramos há um ano, desde o Capodanno que vivemos juntos e, se no ano passado eu apanhei-a de surpresa ao não dizer quando faço anos, este ano ela não me deixou esquecer. Quando percebi que com ela posso sentir-me mais vulnerável e forte do que nunca, deixei-me levar completamente por todas e quaisquer surpresas. Permiti-me renascer nesta primavera.
Ontem de manhã, quando acordei, a Violetta já não estava ao meu lado, nem sequer estava em casa e estranhei, até que vi uma carta na mesa de cabeceira. Mais uma das suas tão bonitas e amorosas cartas. O tempo passa e ela nunca deixou de mas escrever. Guardo todas com todo o meu amor e, quando acho que consigo, respondo-lhe da mesma maneira, senão respondo-lhe o melhor que souber. No final da carta, o p.s. não era o seu habitual «ti voglio tantissimo principe» — estava antes escrito «vem ter comigo ao nosso banco, às 18h».
Ao longo do dia, foram algumas as mensagens e as chamadas que recebi, maioritariamente dos meus amigos da faculdade e da família, sem contar com as notificações nas redes sociais. Porém, não tive mais notícias de quem mais queria, não sabia como havia de me sentir. Depois de ler aquela carta tão bonita e ansiar pelo final do dia, não ter notícias suas durante todo o dia deixou-me abalado, confesso.
Saí mais cedo, passeei pela cidade para relaxar, fiz uma videochamada com os meus pais e os meus sobrinhos e nada. Nada me fazia relaxar. A Violetta não me disse nada. As inseguranças estavam a tentar vencer a minha força, mas às 18h cheguei ao nosso banco branco e lá estava ela sentada: linda, tranquila e a ler, tal e qual como sempre a vi e quando a interpelei pela primeira vez.
— Deixaste-me louco sem saber de ti o dia inteiro!
— Eu sei que não gostas do teu aniversário. Preferi deixar-te sossegado e preparar surpresas para o final do dia e para a nossa noite.
— Estragas-me com mimos, bella.
— Ainda não viste nada…
Desde que me mudei para Roma que as minhas prendas de anos se resumiam a transferências bancárias dos meus pais, copos com os amigos da faculdade, ou livros técnicos que precisava para os estudos e que comprava para mim mesmo. Mas a minha Violetta encheu-me de presentes: a começar pela carta matutina; logo depois, ali no nosso banco, ofereceu-me o livro mais especial da minha vida! É a nossa história de amor! Até o mais forte dos homens se deixa derreter ao ver tamanha lembrança, a sua caligrafia bonita a encher todas as páginas, com todas as cartas de amor que já me escreveu e mais umas quantas que eu nunca tinha lido, a que ela chamou «Páginas do Nosso Diário». Ilustrou-o com as nossas selfies, com fotografias das capas dos livros que lemos juntos e, no final, a receita das suas bolachas de maçã e canela.
— Há um capítulo extra deste primeiro livro da nossa história, mas esse descobrirás no nosso quarto.
— Violetta Valéry!
— Sim?
— Sempre foste tão romântica…
— Não deixei de ser, mas um dia não são dias e ambos merecemos. E, no fim de semana, vamos visitar os teus pais. Tu mereces ter um aniversário bonito e em família.
*
No fim do jantar, juntaram-se a eles alguns amigos de Bruno, assim como um bonito bolo de aniversário, copos e champanhe. Cantaram os parabéns, brindaram e o seu coração batia mais forte do que nunca.
Na manhã seguinte, depois da mais bonita e quente noite de amor que o casal teve, Bruno sentia-se renascido, como se só agora a vida tivesse voltado a fazer sentido. Acordou primeiro que Violetta e foi a sua vez de lhe deixar um bilhete de amor: «A minha flor trouxe-me a primavera e eu voltei a gostar dos meus aniversários,. Grazie mille per tutto bambolina.»



