Estefânia Barroso

por Estefânia Barroso

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Há anos que não vejo um reality show (e não tenho qualquer vontade de ver). Contudo, em março, o tempo de sobra para andar a navegar por aí (forçado) levou-me a verificar que as redes sociais estiveram inundadas com uma mesma situação que se passou no «Secret Story» da TVI. Então, pelo que entendi e em traços gerais, tivemos por lá um casal, cujo segredo deveria ser esse mesmo — «somos um casal» —, em que o rapazinho, um menino que me parece execrável, se envolveu com outra concorrente. A narrativa criada por ele(s) — ele e a namorada — foi que esta seria uma forma de defender o seu segredo. Agora, aquilo a que o Portugal que vê estes reality shows assistiu foi toda uma outra realidade. Claramente, estivemos perante um rapazinho que apresentava uma total falta de caráter, escrúpulos e até de humanidade. Numa pinceladas rápidas, poderei dizer-vos que o jovem rapaz não se coibia de dormir ao lado da namorada «oficial» com outra mulher, a quem distribui carinhos e, pareceu-me, algo mais.

Com tanto sururu sobre o assunto — e com o tempo livre que vou tendo — decidi ver uma «gala» da Casa dos Segredos. E, meus amigos, tenho a dizer-vos que chegou a ser doloroso. O menino, exposto, como é apanágio nesse tipo de programa, às imagens que revelam o seu «bom comportamento», demonstrou a maior sonsice possível, dando a ideia que nada daquilo era verdade, tudo era jogo. A frieza, a total ausência de respeito pela namorada, a falta de empatia para com aquela que, supostamente, ele ama, é assustadora.

E a menina, no meio disso tudo? Nitidamente, uma vítima. Manipulada pelo namorado, preferiu fazer que não via, que não percebia, que era mentira. Disse que iria tomar uma atitude, sim, quando tivesse certezas. Claramente, assobiando para o lado. E, claramente, sendo uma vítima dele, vítima de um excesso de amor por um ser vil (se é que é amor) e uma enorme falta de amor-próprio.

E por que é que esta história me incomodou tanto? É claro que me incomoda ver uma mulher a ser humilhada daquela forma. É claro que me constrange que tudo isto passe num canal de televisão, em frente a tantos e tantos, em que cada um comenta, julga, critica. Mas incomoda-me, sobretudo, porque me revi. Revi, ali, uma Estefânia de vinte e muitos anos, que foi apanhada pelo mesmo tipo de pessoa. E isso dói. Incomoda.

Incomoda perceber que também eu amei demais alguém que não merecia esse amor. Amei demais uma pessoa que se amava a si mesma mais do que a ninguém. Que, com as suas palavras meigas e atenciosas, fazia da conquista um dos seus jogos favoritos. Tal como o rapazinho dessa história, o «x» (revelar o nome não me parece útil), não se preocupava muito em esconder as suas pequenas traições. Tal como o rapazinho, x, quando encostado à parede em confrontos diretos, não assumia nada. Respondia com meias palavras, referia um «não é bem assim» ou «és louca» ou, se nada disso funcionasse, desaparecia por uns dias. E, por mais que me custe assumi-lo, conseguia, dessa forma, que as coisas acalmassem, que a irritação passasse e que, mais uma vez deixasse passar em branco a situação, por mais grave que ela fosse.

O facto é que «x» tinha percebido, há muito, que o meu sentimento era verdadeiro, profundo, e que estava disposta a muito para mantê-lo. A demasiado, percebo hoje. Ele sabia que eu estava disposta, em nome de um amor que, vejo agora, só existia na minha mente, a perdoar, a relativizar, a encontrar explicações para as discussões que surgiam do nada.

Eu, que sempre me considerei segura de mim mesma, certa do que permitia e não permitia, vi-me enredada numa relação que me levou a aceitar muito e a perdoar praticamente tudo. É claro que não aconteceu tudo de um dia para o outro. Foi devagarinho. Um comentário aqui, uma mentira ali, mais uma dúvida acolá… até ao dia em que passei a confiar, apenas e só, na versão dele. Eu é que era problemática! Eu é que chorava sem razão! Eu é que era o problema de tudo! Eu é que era o cerne de toda e qualquer discussão. E, aos poucos, nunca achando que fosse mesmo assim, deixei de contestar… Desde que não houvesse discussão, estava tudo bem.

Hoje, quando olho para trás, percebo o que na altura não consegui ver: aquilo não era amor complicado, não era uma relação difícil, não era um rapaz com problemas emocionais. Era manipulação. Era humilhação disfarçada. Era violência psicológica — violência que não deixa marcas visíveis, mas que deixa uma pessoa em pedaços por dentro.

Percebo, hoje, que o pior não foi a traição. Nem as mentiras. Nem sequer as ausências. A pior parte foi a forma como me fez duvidar de mim própria. Como conseguiu que eu, que sempre tive voz, me calasse? Como conseguiu ele que eu, que sempre tive amor-próprio, aceitasse migalhas e ainda agradecesse por elas? Como conseguiu que eu me tornasse pequena para caber numa relação, que, no fundo, nunca teve espaço para mim?

Talvez tenha sido por isso que aquela história do reality show me incomodou tanto. Por rever tantos e tantos comportamentos que vivi e aceitei… tal como ela vive e aceita. Hoje, sei-o. Hoje, consigo dizê-lo em voz alta: fui vítima de violência psicológica. E demorou anos até conseguir perceber isso, sem a sensação de estar a exagerar.

Reconheço, em muitas das reações daquela menina, a Estefânia dos vinte e poucos anos. Mas também reconheço que essa já não sou eu. Hoje, não me calo. Hoje, não desculpo o que não tem desculpa. Hoje, sei que o amor não humilha, não manipula, não confunde, não faz duvidar de nós mesmas. Hoje, sei que o amor não dói daquela maneira.

Talvez esta crónica não seja sobre um programa de televisão. Talvez seja uma crónica sobre crescimento. Sobre perceber — tarde, mas a tempo — que ninguém merece ser tratado como se fosse descartável. Nem aquela rapariga tão comentada, hoje, nas redes sociais. Nem a Estefânia de há tantos anos. Nem mulher nenhuma.

About the Author: Estefânia Barroso
Estefânia Barroso
Nascida em terras francesas (Chambéry) em 1976, rumou a caminho de Portugal ainda na infância. Embora sonhasse ser veterinária, cedo percebeu que era no mundo das letras que o seu futuro se encontrava. Licenciou-se em Línguas e Literaturas Modernas, variante de Estudos Portugueses, e iniciou a sua vida profissional como professora de Português. Mais tarde, após terminar Mestrado em Educação Especial, tornou-se professora de Educação Especial. Leitora ávida e autora dos livros “Contos com gente lá dentro” e “Contos com bichos lá dentro”, tem mantido o blogue “Steff’s World – a Soma dos Dias”, onde escreve crónicas e contos. Para além disso, escreve para jornais como o P3 do Público e alguns jornais locais.

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