por Sofia Reis Cardoso

Depois de viver uma relação longa e intensa, a primeira coisa que desejamos fazer e que nos recomendam é ficarmos sozinhos algum tempo. Quando digo sozinhos, refiro-me a não nos envolvermos em relações amorosas. Foi o que acabou por acontecer comigo, mas não porque a sociedade assim o ditava, porque estava preocupada com a opinião dos outros ou porque queria viver sozinha.
Esta decisão foi uma consequência das várias situações com que me deparei após a minha separação. Só mais tarde vim a perceber que todas as tentativas de relação que tive não iam ser mais do que repetições da que tinha terminado, que as pessoas que me despertavam interesse não eram mais do que homens com caraterísticas muito semelhantes às do meu companheiro de muitos anos, ainda que expressadas em comportamentos e de formas diferentes.
Ao aperceber-me do meu modelo repetitivo, percebi que também eu precisava de me curar. Viver uma relação enquanto dependente emocional envolve-nos numa teia da qual julgamos que nunca mais vamos conseguir sair, que não somos ninguém sem aquela pessoa e parece que não sabemos viver sem a sensação de medo, ansiedade e preocupação constante.
A perceção de viver sem estas emoções e sentimentos é muito difícil de explicar. Faz-nos sentir perdidos, no sentido em que se assemelha a um «stress pós-traumático». É como se tivéssemos deixado uma qualquer dependência, como o álcool ou as drogas, e estivéssemos a aprender a viver em pura abstinência. A abstinência destas sensações que aquela pessoa nos provocava reflete-se não só emocionalmente, como também fisicamente. O corpo sente inteiramente aquela ausência, sente a dor, o cansaço.
A toxicidade, violência ou abuso vividos numa relação não se podem diminuir apenas a situações físicas, pois são tantas e tantas as vezes em que estes movimentos ocorrem do ponto de vista emocional e não é por isso que têm menos impacto nas vítimas.
Aceitando a dureza e a realidade dessas palavras, eu fui uma vítima desses mesmos abusos que originaram uma relação que nada teve de saudável. Hoje, desejo nunca mais me permitir viver numa relação em que o meu humor, a minha produtividade, o meu bem-estar estejam totalmente dependentes das reações, humores, sentimentos e comportamentos da pessoa com quem tenho uma relação.
Por ainda hoje sentir, na pele, os efeitos do que foi viver uma relação deste tipo, tenho bem presente o quão importante é não me poder esquecer de quem sou em primeiro lugar, daquilo que sinto, do que gosto de fazer, do tipo de pessoas com quem gosto de me relacionar, antes de me deixar influenciar pelos gostos e vontades da outra parte.
Viver a dois é absolutamente prazeroso, desde logo pela partilha, pelas conversas, pela cumplicidade que se cria e pelos bons momentos que é possível viver ao dividir a vida com outra pessoa. Mas há uma singularidade que eu não mais quero perder, de que não vou abdicar, para que nunca mais me esqueça de quem sou e de que há vida para além da relação a dois, e ainda bem.
Para além de ser mulher, sou também tia, amiga, filha, irmã, cunhada, sobrinha, prima e quero viver todos esses papéis, independentemente de me encontrar ou não numa relação amorosa.
Entendo que deve existir um equilíbrio muito saudável entre aquilo que podemos ajustar à nossa pessoa, porque, se gostamos dela, queremos fazê-la feliz e há que ter a consciência de que podem e devem haver cedências de parte a parte. Não quero ser aquela pessoa, como já ouvi tantas outras dizerem, que diz «eu sou assim e não vou mudar por ninguém!» Não me identifico com este extremismo, mas preocupa-me não voltar a ser a «presa» que vive apenas e em função daquela pessoa.




