por Estefânia Barroso

O inverno é uma estação de que não consigo gostar. Para dizer a verdade, para além do verão com o seu sol e calor quase constantes, não nutro grandes amores por nenhuma estação. Tenho de o dizer: não aprecio muito o outono e a primavera por serem aquelas estações «nem-nem». Se as estações seguirem o caminho natural, elas não deixam de ser uma estação de transição entre o frio e o calor, no caso da primavera, e entre o calor e o frio, no caso do outono. E gosto pouco de coisas que, de uma forma popular, chamo de «nem carne, nem peixe». É por essa razão que não aprecio muito nenhuma delas, ainda que lhes consiga encontrar, aqui e ali, alguns encantos (o renascimento da natureza, na primavera, pinta-nos quadros deveras bonitos, assim como é inegável que as cores do outono são deliciosas). Contudo, uma estação abarca muito mais do que as cores que pinta na natureza e não me surgem muitas mais razões para gostar da primavera e do outono.
Agora, a estação de que não consigo gostar nem um bocadinho é mesmo o inverno. Eventualmente, se vivesse numa Suíça em que estivesse rodeada de paisagens brancas, com a companhia do frio, da neve, mas também de algum conforto térmico dentro dos edifícios… talvez, e só talvez, pudesse gostar um pouquinho dessa estação. Mas… viver o inverno em Portugal? Isso é demasiado duro e, garanto-vos, não é algo de que se goste facilmente.
Conheço várias pessoas, filhos de emigrantes que, habitualmente, vêm a Portugal nas férias de verão. Têm a ideia de que em Portugal está sempre sol e que nunca chove. Entre elas está uma prima que, aqui há uns tempos, decidiu vir a Portugal passar o Natal. Confidenciou-me, então, que não reconhecia o país. Afinal, aqui também chovia, aqui também fazia frio, e bastante e, acima de tudo, aqui o frio era difícil de suportar!
A verdade é que em países como a França e a Suíça, em que as temperaturas são efetivamente baixas, não se vive tão mal como em Portugal. Há que dizê-lo: por aqui sofre-se muito com o frio. Seja nas casas, seja em edifícios públicos, o frio impera. É muitíssimo difícil manter uma casa bem quente, para não dizer impossível, em quase todas as casas do país. Qualquer que seja o sistema de aquecimento escolhido, a verdade é que a fatura no final do mês é imensa e difícil de suportar pela maior parte das famílias. E nos edifícios públicos é o mesmo! Nas escolas, batemos o dente. Lembro-me de, nos meus tempos de meninice, em França, usar um casacão bem grosso no inverno. Mas chegávamos à escola e largávamos logo o dito, usando pouco mais que uma camisa e uma camisola. Já em Portugal, em grande parte das escolas (pelo menos as muitas que conheci ao longo destes anos de ensino), impera a lógica da cebola: camadas e camadas de roupa e, por cima, um casacão que, não raras vezes, não conseguimos despir.
É claro que este frio constante, esse desconforto térmico que vivemos em grande parte do dia, traz dois grandes problemas associados à época.
Por um lado, aquelas pequenas doenças que são mais do que chatas — as dores de garganta, as constipações, a tosse, a rouquidão. Passamos os meses de frio de lenço no bolso e a fungar! É feio. Haverá alguém que se sinta mais bonito no inverno do que no verão? Duvido! Parecemos bonecos Michelin de tão «enchouriçados» que estamos nas muitas camadas de roupa, passamos os dias a fungar e com tosse, o nariz está vermelho, destacando-se na nossa pele branca que já perdeu qualquer cor ganha no verão.
Por outro lado, todo esse mau-estar físico traz com ele um mau-estar psicológico. Temos menos paciência. Andamos zangados com o tempo. Este ano, então, com tanta chuva e tantos estragos, não podemos estar sorridentes e felizes. Somos, naturalmente, mais calados, mais metidos connosco próprios, mais cinzentões. Saímos menos de casa. Passeamos menos. Convivemos menos. Queremos hibernar como os ursos e só voltar a sair de casa quando houver sol e calor. Aí, sim, voltaremos a sair, a socializar, a ser pessoas bonitas!
Por isso, quando alguém me diz que gosta do inverno e que ele tem o seu encanto, tento esboçar um sorriso (que sei que será amarelo), concordo com a cabeça, mas por dentro penso que essa pessoa deve estar com algum problema psicológico. No meu íntimo só passa uma ideia: que o inverno passe depressa! Que leve consigo o frio entranhado nas paredes, os narizes vermelhos, as tosses persistentes e esse peso invisível que cai sobre o humor das pessoas. Que dê lugar ao sol, bem quentinho, ao calor que nos devolve a cor à pele e, sobretudo, a vontade de sair de casa. Porque, no fundo, mais do que estações bonitas ou feias, o que quero é sentir conforto dentro dos meus dias. E isso, infelizmente, o inverno em Portugal raramente me consegue oferecer.




