Maria Reis

por Maria Reis

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Quando me chamaram plantinha… Foram cinco dias cruciais!

Aquela doce e meiga voz soava aos meus ouvidos, anunciando algo que, periodicamente, acontecia:

– Ora, vamos lá regar esta plantinha.

Era eu essa plantinha! Agora apenas era alimentada através dessa «rega» de soro.

Naqueles dias de abril de 2010, eu vivia um dos maiores desafios da minha vida! Apenas após esses cinco dias eu teria a certeza do sucesso daquela cirurgia.

Entregara-me a essa cirurgia plenamente confiante, com grande equilíbrio interior, coração tranquilo e mente em paz, não obstante o cuidado da médica cirurgiã em me informar dos riscos que eu iria correr:

– Quero que tenha plena consciência de que vai ser submetida a uma cirurgia oncológica de cinco horas. Será uma cirurgia de risco que poderá ser seguida por complicações.

Sim, assinei a autorização sem medo, não sentindo qualquer pânico, mas antes tranquilidade, convicta de que ficaria liberta desse mal que punha em risco a minha vida.

Recordo o acordar da anestesia como um dos momentos mais tranquilos por mim vividos, já que me senti invadida por uma enorme sensação de bem-estar, com as palavras «está tudo bem» a ecoarem na minha mente!

— A esta senhora hoje saiu-lhe o euromilhões — ouvi estas palavras mais tarde, já na sala de recobro, quando a equipa de cirurgia veio visitar-me. Estas palavras ainda hoje me aquecem o coração…

Sim, estava vencido um grande passo: a cirurgia! Acontecia, no entanto, que a meta onde se encontrava a certeza de que não haveria complicações apenas seria atingida após esses cinco dias…

Em cada dia eram efetuadas análises, não me era permitido levantar-me e, como já referi, apenas o soro me alimentava.

No meu abdómen estavam cravados cerca de quarenta agrafes. Não recordo bem ao certo quantos. Além de ter sido feito o tratamento adequado ao tumor, foram retiradas uma parte do pâncreas, outra do estômago, outra do duodeno e a vesícula biliar. Além da cicatriz exterior, havia também as interiores, o que, como se pode perceber, me provocava algum desconforto físico. Certos movimentos provocavam dores. Não podia mexer-me muito. Estavam livres braços e pernas, com que eu, de quando em vez, fazia exercícios. Apesar de tudo, nunca me senti desencorajada. O bom humor e o otimismo continuavam a fazer-me companhia.

Assim percorri aqueles cinco dias: sem impaciência, obedecendo ao que me era aconselhado, sentindo-me grata pelas ajudas e tratamentos que me eram prestados.

Finalmente, chegou a manhã em que a visita médica me trouxe essa certeza.

Não havia indícios de qualquer complicação. Nessa tarde, eu já poderia levantar-me.

Ouvi com satisfação aquelas palavras:

— Hoje vai poder tomar um chá, mas deve bebê-lo muito lentamente.

Sim, recebi essa instrução para o chá e também as instruções para, no dia seguinte, iniciar uma alimentação normal.

Envolvida por enorme expetativa e inundada por enorme gratidão, aguardei o momento de me sentar junto daquela janela onde estava também a mesa na qual me seria servido o chá. Não, não foi um chá qualquer! Ainda hoje, sinto esse momento como sendo extremamente emocionante. Esse chá foi um recomeço, foi como que um troféu ganho face a uma vitória crucial para a vida. Esse chá fez-me sonhar…

Sim, necessitei de ser ajudada para sair da cama, para caminhar até à mesa e me sentar. Foi-me trazido o chá e, mais uma vez, ouvi o conselho para o beber muito lentamente.

Olhei pela janela e, então, o que vi e senti?

Os meus olhos viram o mar belo e tranquilo. Sobre a mesa vi um saboroso refresco. Senti o sol beijar-me e também a agradável sombra de exóticas palmeiras que se encontravam em redor. Afinal, encontrava-me num ambiente paradisíaco! Deixei-me embalar pelo belo. Deixei que a minha mente me presenteasse… Colherinha após colherinha, fui saboreando aquela bebida, sentindo invadir-me uma imensa paz!

Vivi, sim, um momento inesquecível. O que poderia ter sido um pesadelo transformou-se numa bela realidade!

Naquele dia percebi que o que nos rodeia pode ser sentido com horror ou deleite — apenas depende do nosso sentir!

Hoje, posso dizer que essa doença me alertou para saber privilegiar o lado belo e positivo da vida. Trouxe-me fé, confiança, força interior. Ainda mais intensamente, passei a andar de mãos dadas com a alegria de viver, elegi o amor como meu fiel e bom companheiro. Nunca me senti dona do saber — antes me sinto dona do meu sentir. O meu sentir é como uma luz nesta minha caminhada pela vida.

Afinal, a vida é uma constante aprendizagem! O que nos vai acontecendo no dia a dia transforma-se sempre numa lição, num conselho a seguir. Não ignoremos esses ensinamentos. Saibamos aplicá-los.

Talvez eu não soubesse o quão grande é a magnitude de sabermos ser gratos!

Então, da vida, eu recebi mais esse ensinamento…

Sim, eu aprendi!

Sim, adquiri um hábito que, até então, nunca fizera parte das minhas rotinas:

No início de cada dia, numa singela prece, eu manifesto sempre essa minha enorme gratidão pela vida que me tem sido concedida!

About the Author: Maria Reis
Maria Reis
Nasceu em 1947. É transmontana, sonhadora. Está aposentada da profissão de professora, tendo exercido docência nos 1º e 2º ciclo de Ensino Básico. O seu percurso de vida foi seriamente afetado pela Guerra Colonial Portuguesa, travada entre 1961 a 1974, período que viveu intensamente com o sofrimento de dolorosas perdas, saudades e muita instabilidade emocional. Acredita que a vida só faz sentido quando vivida com amor.

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