Sofia Pereira

por Sofia Pereira

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A noite de 28 de janeiro de 2026 ficará gravada em mim como uma ferida que não fecha. Foi a noite em que a depressão Kristin caiu sobre Leiria com uma fúria que nunca tínhamos conhecido. Quase duas horas de vento e chuva incessantes, violentas, impiedosas. Duas horas que pareceram uma eternidade, em que tudo o que julgávamos sólido se revelou frágil.

O som ainda ecoa na memória: o uivar do vento a rasgar o ar, o estrondo seco das árvores a cair, os telhados a serem arrancados como se fossem de papel. A cidade transformou-se num cenário de guerra. Não apenas no centro, mas também nas freguesias, onde a escuridão parecia ainda mais densa e o medo mais solitário.

Ficámos sem água, sem luz e sem telecomunicações. Isolados do mundo, sem saber o que estava a acontecer para lá das paredes das nossas casas, sem conseguir pedir ajuda, sem notícias de familiares ou amigos. A sensação de vulnerabilidade foi absoluta. Só o barulho do vento, da chuva e dos destroços nos fazia companhia naquela noite interminável.

Pinheiros com mais de cinquenta anos, testemunhas silenciosas de gerações inteiras, tombaram um a um. Árvores que viram crescer crianças, que deram sombra a verões inteiros, caíram como se nunca tivessem pertencido ali. O avião, símbolo da nossa infância, no parque de todos — aquele onde sonhámos ser pilotos, aventureiros, livres — ficou destruído. O jardim onde corremos, rimos e brincámos perdeu a inocência naquela noite. Já não é apenas um jardim: é uma memória ferida.

As viaturas ficaram destruídas, as ruas irreconhecíveis, as casas abertas ao céu. Mas nada se compara às vítimas que se perderam. Essas perdas não se reconstroem, não se substituem, não se esquecem. E fica a pergunta que nos assombra em silêncio: e se isto tivesse acontecido de dia? Quantas mortes teríamos? Quantas pessoas estariam nas ruas, nos jardins, nos parques, debaixo das árvores que caíram, junto aos edifícios que ruíram? Pensar nisso arrepia mais do que o próprio vento daquela noite.

A economia ficou devastada, famílias inteiras viram o trabalho de uma vida desaparecer em horas. E, para além dos estragos visíveis, ficaram os invisíveis — os mais difíceis de reparar.

O medo nasceu nessa noite e não desapareceu com o amanhecer. Hoje, um simples sopro de vento é suficiente para fazer o coração acelerar, para trazer de volta a sensação de impotência, para nos colocar novamente naquela madrugada interminável. Ficaram marcas psicológicas profundas, silenciosas, que cada um carrega à sua maneira.

Ainda assim, no meio da destruição, nasceu também uma certeza: vamos reerguer Leiria. Com as mãos, com a coragem, com a solidariedade que surge quando tudo parece perdido. E, ao mesmo tempo, vamos aos poucos reerguer-nos a nós próprios. Não será rápido, nem fácil. A vida continua, sim — mas continua de forma diferente. Mais cautelosa, mais consciente da fragilidade, talvez mais humana.

Leiria não será a mesma. Nós também não. Mas continuamos. E isso, por si só, já é um ato de resistência.

About the Author: Sofia Pereira
Sofia Pereira
Com formação superior em Ciências Humanas e Comunicação, vive imersa nas palavras e na escrita desde sempre. Escreve sobre a Vida e o Mundo, a partir daquilo que observa, ouve, sente e pensa. A escrita é o seu meio de compreensão, reflexão e expressão, onde transforma as experiências diárias em algo profundo e significativo, partilhando com os outros a sua visão única do mundo.

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