Inês Biu Faro

por Inês Biu Faro

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«Um dia, escrevo-te uma carta de amor — ridícula, como todas devem ser e, vinda de mim, pegajosa de tanto mel.

Um dia, escrevo-te uma carta de amor e conto-te as longas e infindas horas que passo de um lado para o outro da cama, a pensar em quem poderá amar-te mais do que eu, em quem poderá dar mais de si e fazer mais por ti do que eu.

Um dia, escrevo-te uma carta de amor e conto-te que, sem ti, não sou nada. Que, quer tenha dias bons ou maus, és tu quem mos ilumina, és tu quem me puxa sempre para cima ou acolhe no colo para suspirar, quem sabe chorar, aliviar do dia e deixar os problemas fora da minha Torre.

Um dia, escrevo-te uma carta de amor e conto-te como é bonito o meu Sótão, como nele cresço com tudo e todos que cá estão, que da sua janela grande vejo tudo à distância e desejo ser mais e melhor a cada dia. Conto-te como a minha Plateia é cheia de bons corações e o Salão de amigos para a vida inteira.

Um dia, escrevo-te uma carta de amor e conto-te como sorrir deixa, cada vez mais, de ser uma tarefa e torna-se um prazer. Por tua causa. Porque tu existes. Porque tu lutas por mim. Porque tu me acordas e fazes viver, um dia de cada vez, o mais feliz que posso ser.

Um dia, escrevo-te uma carta de amor ridícula e pegajosa e nela conto-te como és a conquista mais forte e bonita da minha vida!

Obrigada, Amor Próprio, e obrigada, Auto-Estima, por estarem sempre comigo!

Obrigada, Inês, por nunca deixares de sorrir.»

Depois de reler outras crónicas minhas para me inspirar, encontrei a mais recente carta de amor que me escrevi, de forma exímia, como só eu sei escrever, pegajosa e poeticamente ridícula.

Fevereiro é o mês do amor, mas não deveriam ser todos? Para mim, sim, esteja eu enamorada por algum príncipe encantado ou não, a primeira pessoa da fila serei sempre eu.

O amor-próprio tem sido a minha maior luta e, desde que comecei a aprender que eu mereço amar-me antes de amar qualquer outra pessoa, chegou também a crença e o sentimento de que amo muito mais e melhor os outros quando começo por me amar a mim.

O poeta dizia que todas as cartas de amor devem ser ridículas. Desde então, as primeiras linhas das minhas cartas de amor começam com essa afirmação, de que as linhas que se seguem serão ridículas de amor e, por virem de mim, serão igualmente pegajosas de tanto mel que eu deixo em cada palavra.

Ainda hoje, quando releio os rascunhos de todas essas cartas, sinto o amor e o mel. Ficaram as saudades. Manteve-se a vontade de escrever sempre cartas de amor, mais e mais cartas de amor, de mim para ti, de mim para aquele, este e o outro. Mas, sobretudo, escrever cartas de amor para mim, para o meu amor-próprio, para o maior amor da minha vida e que mais me sustém e mantém viva.

O amor-próprio não só é o mais importante da minha vida, como tem sido o mais difícil de conquistar, manter e alimentar. Porque nem todos os dias é fácil olhar-me ao espelho e sentir-me a mulher incrível que afirmo ser. Nem todos os dias me sinto única e especial, embora saiba que o sou.

E, tal como eu, acredito que haja muitas mais mulheres – amigas minhas incluídas – que dão tudo, todos os dias, para se amarem mais um pouco, para se olharem ao espelho e gostarem do que veem. Quando acordo, decido sempre que vou maquilhar-me para realçar a minha beleza, usar a maquilhagem enquanto acessório e não uma máscara. Quantas pensamos desta maneira? E quantos dias? Nem sempre a maquilhagem é só para tapar os sinais de uma noite mal dormida. Há dias em que é mesmo para nos escondermos, mais de nós mesmas do que dos outros.

Não penso demasiado na roupa que visto – a menos que seja algum evento especial – e não deixo que isso me afete. Quero apenas sentir-me bem, bonita e confortável. Quero que a roupa se adeque a mim e não o contrário. Faço – fazemos! – com que todos os dias haja um momento para me sentir bem e bonita na minha pele, na minha vida, no meu amor. Todos os dias, faço por me olhar com generosidade, com calma, com amor para cada um dos meus detalhes. Todos os dias, faço por cultivar a minha beleza interior, para que se reflita no exterior e, assim, sentir-me ridícula e pegajosa comigo mesma.

Cada manhã é diferente, até mesmo cada hora do dia, e, mesmo quando há momentos mais pesados, há que agradecer por trazerem equilíbrio e reconhecermos que é nesses momentos que mais devemos amar-nos. Fevereiro tem sido apelidado de «mês do amor», mas todos os outros onze são-no igualmente. Como? Dedico cada dia a mim mesma. Tenho aprendido a valorizar-me, a priorizar-me, a abraçar-me quando mais preciso e não há outros braços para me darem colo.

Comecei esta crónica com a última carta de amor que escrevi a mim mesma. Decidi partilhá-la para a usar como mantra, para me recordar sempre que precisar e para vo-la oferecer a vocês. Leiam as vezes que precisarem. Usem-na também como mantra. E nunca se esqueçam de que o primeiro amor das vossas vidas tem de ser vocês mesmas.

About the Author: Inês Biu Faro
Inês Biu Faro
Ainda não conhecia o abecedário quando começou a "escrever". Enchia cadernos com linhas "escritas" à sua maneira, com todos os seus contos de fadas e sonhos. Ao longo da escolaridade, aprimorou o gosto pela escrita e desde que se lembra que escreve diários. Não é fácil ser várias mulheres numa única e só os diários a compreendem, por falar consigo mesma. Escreveu, escreve e escreverá sempre com o coração, com emoção, de uma mulher para tantas outras, de um coração para tantos outros. Tem um manuscrito por editar. Será desta que sairá do forno? Esperemos que sim!

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