por Inês Biu Faro

O tempo tem-me ensinado, cada vez mais, a respeitar as pausas que faço na escrita. Nunca são propositadas. Nunca espero ter mais uma. Respeito quando vêm e não me forço a escrever. Mas e depois, quando volto, vou escrever sobre o quê?
É que o tempo também me tem ensinado que escrever sobre emoções e sentimentos é um bom hábito. Ao longo dos anos, tenho feito boas e bonitas reflexões sobre mim, sobre o que sinto, o que penso, o que sonho, o que imagino e o que desejo.
Desta vez, o regresso está a ser mais confuso. As ideias são muitas, estão todas anotadas e rascunhadas, mas não escrevi nenhuma até ao fim. Será que sou capaz de o fazer agora? Será que me lembro da ideia que tive quando anotei uma mera frase? Conhecem aquela piada de o cérebro de um italiano ser um emaranhado como se fosse esparguete à bolonhesa? Exato… Neste momento, é assim que sinto que tenho as minhas ideias. Quero puxar uma ponta e das duas uma: ou entorno o prato todo, ou não sei por onde começar ou como vai acabar.
Habituei-me a pegar em cada uma delas e deixar deslizar os dedos sobre o teclado, mas agora estão todas numa pilha de folhas, a ganhar pó, em gritos surdos: «Escolhe-me! Trabalha-me! Puxa-me e manda-me cá para fora!» Mas e qual delas é que grita tudo isto? Duas ou três? Todas? Começar por onde? Por qual? Fecho a porta do armário, encosto-me e deixo-me escorregar até ao chão… São tantas. Quero todas. Como chegar a cada uma?
O tempo tem-me ensinado a respeitar as pausas, a regressar delas, a recomeçar, a reler e a corrigir, a pegar nas ideias com pinças e trabalhá-las qual relojoeiro. O que é que me falta, agora, para começar? Café, já bebi! Música boa? Está a tocar. Cadernos de apontamentos? Ao meu lado! A pen com os meus rascunhos? No computador. Quase que dá vontade de ter as ideias em papelitos soltos, enfiá-las num frasco, tirar à sorte e não parar de escrever até ter a ideia toda trabalhada! Ou atirar todos ao ar e o que ficar mais próximo é o escolhido para ser escrito.
As pastas na pen são tantas ou mais que os cadernos que tenho e estão sempre todas comigo. Faço até cópias para o telemóvel, ou do telemóvel para os cadernos. Olho e penso quase sempre o mesmo: «Olha! Esta era boa agora! Esta também! E esta? Pega nesta!» E, nisto, já passei os olhos por toda a lista, já me recordei do que já escrevi antes e já não faz sentido e não encontro o que possa fazer.
Traiçoeiro de entender? Eu sei, bem-vindas ao meu mundo. Quando eu achava que aqui só havia um sótão das mil e uma portas, para arrumar memórias e amores, afinal também há uma torre das ideias e dos escritos, onde os armários e estantes carregados de prateleiras, pilhas de papéis e post-its se acumulam uns atrás dos outros. Sobretudo, aquela estante com a etiqueta «por escrever», que tem prateleiras divididas por temas ou pelo que me apetece, na verdade. Chego a ler n vezes crónicas antigas. Gosto tanto de uma frase ou só do título que quero aproveitar novamente. Os assuntos misturam-se e lá vem mais uma estante para esta biblioteca.
Felizmente, as estantes do que já está escrito são tantas quantas as que estão cheias dos «por escrever». Se alguma vez as esvaziei e ficaram todas nos escritos? [Gargalhadas sonoras] Não, minhas queridas. Não! Parece sarna! Quanto mais escrevo e tento esvaziar as estantes, mais ideias tenho para escrever, como se tivesse receio que ficassem vazias de todo! Já até pensei escrever o que me sugere cada carta de tarot, cada signo e aspeto astrológico, até mesmo cada personagem de ópera que já vesti ou que admiro.
Percebem, agora, como é que funciona esta torre das ideias e dos escritos? É que eu não! [Risos]
Mas, agora, que parece que estou a voltar da pausa, há de voltar o bom e feliz hábito de às 10:30 da manhã já ir na terceira crónica escrita e esvaziar as prateleiras dos «por escrever», para meu gáudio, alegria de quem me lê e irritaçãozinha amorosa da minha amiga Steff! — Je t’adore ma soeur, bisous.
Qual será a próxima crónica? Ai, filhos… Eu sei lá! Vamos esperar que o hábito comande esta torre e estes deditos. O resto… acompanhem-me com todo o gosto de sempre e encham-me de alegria com as vossas partilhas e, se quiserem, dar-me ainda mais ideias. Hão de haver sempre estantes por encher!
De regresso aos bons e felizes hábitos: escrever!



