Inês Biu Faro

por Inês Biu Faro

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Parece uma pergunta simples, não é? Aquela que faz parte do nosso dia a dia e que até respondemos várias vezes por dia. Ainda assim, vindo da pessoa certa e no momento certo, pode tornar-se a resposta mais difícil que daremos no dia ou, até, na semana.

Isto é, quando qualquer colega me pergunta como estou, a resposta é completamente automática. Agora, quando é alguma amiga mais próxima — aquelas a quem chamo irmãs ou, até mesmo, flores do meu jardim —, a resposta são parágrafos atrás de parágrafos ou uma simples mensagem: «Estou no Nicolau. Vem cá ter. Estou a precisar de ti.»

«Como estás?» é a pergunta mais rasteira de todas! Faz-me pensar para além de «bem e tu?». Faz-me remexer em todos os novelos que para aqui andam, abrir janelas, receber o sol e correr pelos jardins encantados do meu mundo. Então, com muita paciência, levanto o grande e pesado tapete: «’bora, novelos, ajudem-me a ajudar-vos. Falar sobre vocês faz-nos bem a todos». E começo, parágrafo a parágrafo, tema por tema para não me esquecer de nada e, quando termino, uma mensagem passou a ser uma carta.

Uma carta que poderia ter ido por correio, mas que ao chegar ao destinatário já teria acontecido tanta coisa que, se calhar, teria perdido parte do seu sentido. Nem sempre começo da mesma maneira. Tento ir pelo que tenho mais fresco na memória — por norma, são os assuntos do coração —, e, um atrás do outro, os assuntos saem: amores, trabalho, família, amizades, alguma peripécia, livros que tenho lido ou tenho interesse em ler, espetáculos a que tenho ido e ainda irei. E acontece-me, quase sempre, deixar o amor-próprio para o final; isto é, desabafo como verdadeiramente me sinto, como tenho alguns dias melhores que outros, que os «outros» são mais duros por apertarem os meus gatilhos internos que ainda não desapareceram totalmente, e acabo por também comentar as evoluções que tenho feito na terapia e de como tenho momentos em que me sinto tão culpada por ter perdido um pouco o ritmo de escrita — estou a tentar recuperá-lo.

Na grande maioria das vezes, tendo em conta de quem vem a pergunta, permito-me demorar a responder. Às vezes, até escrevo nas notas do telemóvel antes de enviar, precisamente para não me esquecer de nada, para poder lembrar-me de tudo o que aqui vai dentro, olhar para as minhas constelações internas, tentando decifrá-las mais um pouco ou só pondo um pouco de si mais a nu, como quem pede ajuda para ler esses enigmas que me compõem.

Já, por várias vezes, reli essas mesmas longas mensagens que escrevo a quem me quer bem. Confesso que parecem autênticas crónicas e, depois, o que poderia ter sido uma carta ou postal torna-se numa mensagem escrita gigante, enviada pelo WhatsApp, como se estivesse a escrever no meu diário — na verdade, copio sempre essas grandes mensagens para o meu diário do telemóvel — e a recetora dessa mensagem torna-se numa «Pessoa Diário» — hei de vos falar sobre este tipo de pessoas. Não espero que me responda da mesma maneira. Espero apenas empatia e coração disponível para me ler, para perceber o que eu também percebi: que me foi dado colo e eu aceitei, que eu abracei os braços que se abriram para mim e tirei peso dos ombros. Tal e qual como eu faço com estas minhas pessoas, nem que tenha de lhes perguntar: «Agora a sério, como é que estás?»

«E tu, como estás?», vindo de quem vem e quando vem, é sempre colo, é sempre abraço. E será sempre retribuído! Ouviram? Sãozoca, Purpurina, Laura, Daniela, Steff, Moody, Guigas, Beazinha, Tita, Astrogirls, Joana Bee, Rute e todas as outras irmãs e flores do meu jardim que ao longo da minha vida me têm acompanhado, amparado, abraçado e amado, tanto quanto eu a elas.

About the Author: Inês Biu Faro
Inês Biu Faro
Ainda não conhecia o abecedário quando começou a "escrever". Enchia cadernos com linhas "escritas" à sua maneira, com todos os seus contos de fadas e sonhos. Ao longo da escolaridade, aprimorou o gosto pela escrita e desde que se lembra que escreve diários. Não é fácil ser várias mulheres numa única e só os diários a compreendem, por falar consigo mesma. Escreveu, escreve e escreverá sempre com o coração, com emoção, de uma mulher para tantas outras, de um coração para tantos outros. Tem um manuscrito por editar. Será desta que sairá do forno? Esperemos que sim!

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