Sofia Pereira

por Sofia Pereira

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Este ano pesa. Não é só o calendário a avançar — sou eu que sinto cada dia como se fosse mais cheio, mais difícil de atravessar. Há anos que passam leves, quase distraídos. Este não. Este ano fica.

Tem sido um ano de desilusões, dessas que não fazem barulho quando chegam, mas ecoam muito depois de se instalarem. Pessoas que pareciam certas, caminhos que pareciam seguros, promessas que julgávamos firmes — tudo, pouco a pouco, a desfazer-se nas mãos. E o mais estranho é que não há um momento exato em que tudo cai. Vai caindo devagar, como se nos fosse habituando à perda.

E, no meio disso tudo, cresce a melhor das certezas, serena de aceitar: quem me tira o meu lar tira-me tudo.

Porque o lar não é só paredes. Não é uma morada escrita num envelope. O lar é onde descanso o que sou, onde pouso o peso dos dias, onde me reconheço sem esforço. É o lugar — ou as pessoas — onde não preciso de me explicar. Onde pertenço.

E, quando isso falha, quando isso se desfaz, não sobra muito onde cair. Mas, ao mesmo tempo, nasce uma vontade silenciosa de reconstruir. De voltar a encontrar um chão que seja meu, mesmo que diferente do que imaginei.

Este ano tem sido assim: um exercício de reconstrução sem planta, de tentar erguer algo com as mãos ainda a tremer, mas já com mais cuidado. Um ano que obriga a reaprender o que é ficar, o que é confiar, o que é chamar “casa”.

Talvez por isso seja tão denso. Porque não é só o que se perde — é também o que, devagar, se começa a erguer outra vez.

About the Author: Sofia Pereira
Sofia Pereira
Com formação superior em Ciências Humanas e Comunicação, vive imersa nas palavras e na escrita desde sempre. Escreve sobre a Vida e o Mundo, a partir daquilo que observa, ouve, sente e pensa. A escrita é o seu meio de compreensão, reflexão e expressão, onde transforma as experiências diárias em algo profundo e significativo, partilhando com os outros a sua visão única do mundo.

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