por Daniela Rodrigues

A ti, que chegaste sempre sem avisar, sem bater à porta, sem pedir licença para entrar…
A ti, que sempre vinhas negro e frio, que me abraçavas inteira e me consumias num abismo sem fim…
A ti, que criavas o maior vazio de todos os tempos — aquele que mais magoava — no meu ponto fraco sempre certo: o meu ventre.
Chegavas ali, instalavas-te, esvaziavas tudo o que havia de bom e alastravas o teu frio, a tua negridão, para todo o meu corpo, o meu coração, a minha mente.
O meu maior sonho era sempre aquilo que atacavas primeiro.
Talvez me estivesses a testar, a tentar descobrir até onde eu iria e se, algum dia, um de nós ia ter o seu «ponto final».
Tenho algo para te dizer: apesar de ti… eu ainda estou aqui!
Aprendi a dar-te cor nuns dias e a aceitar a tua escuridão noutros.
Não voltei a ceder aos teus desejos, não vou deixar que sejas tu a determinar o último suspiro. E, mesmo quando tentas com isso, tal e qual como o demónio à espera da falha — do pecado — para me levar… eu tenho algo mais forte que tu para te combater. Algo que nasceu de mim — exatamente do ponto fraco que tu atacavas. Acho que ele é o teu calcanhar de Aquiles. Foi a fraqueza que, entre as tuas idas e vindas, nasceu para me salvar.
Aprendi contigo a caminhar na corda bamba. Tu tiravas-me a rede que me podia segurar se eu caísse e eu ficava à tua mercê, a cair num abismo sem fim, enquanto assim o querias. Só que alguém, um dia, veio para me segurar de verdade, para me dar a mão e me incentivar a continuar, a ir à luta. E depois… depois aprendi a equilibrar-me. Já não tenho a rede que me amparava nem o colo na queda, mas tenho-me a mim: muito mais forte agora do que naqueles dias, há tantos anos atrás.
Hoje… ainda te lembras de vir até mim. Mas já te pressinto ao longe. Se umas vezes te fecho logo a porta e nem te dou margem de chegares perto… Outras vezes até te deixo entrar e te convido para um café, sentamo-nos à mesma mesa e conversamos.
Ainda sabes onde me magoa mais, ainda tentas alcançar-me, mas já não tens aquele efeito devastador.
Ainda não sou imune a ti, mas aprendi a erguer as barreiras que me protegem de ti, que me mantêm segura em mim.
Hoje, sei que fazes parte da minha história, que serás uma sombra a acompanhar-me em alguns passos, mas o teu frio já não me gela o corpo e o teu tom negro já não me dá medo.
Sei que és parte de mim, mas tornei-me mais forte do que tu.
Serás sempre o meu abraço negro e eu serei aquela que aprendeu a colorir-te.
Vou sempre dizer que foste a minha corda bamba, mas foi contigo que aprendi a seguir sozinha.
Talvez tenha aprendido a abraçar-te como me abraçaste a mim.



